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Source:  http://liberallibertariolibertino.blogspot.com/2005/12/king-kong-e-conversas-sobre-cinema.html


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Tuesday, December 20, 2005

King Kong e Conversas sobre Cinema

Cinema de Idéias

Que me desculpe quem gosta de filmes em que a morte joga dominó ou crianças perdem suas cuequinhas, mas cinema, cinema mesmo, é o cinemão hollywoodiano. É só sentado em um cinema, cercado de adolescentes histéricos, a um palmo da tela, assistindo ao último blockbuster da temporada, que a gente entende todo o significado da experiência cinematográfica.

Sim, sim, vão me acusar de simplório, ou dizer que não entendo de cinema. Aliás, precisa "entender" de cinema, ter estudado Teoria da Imagem ou algo assim pra opinar? Ainda vou escrever um post sobre esse tipo de comentário. Nada pode ser mais arrogante do que alguém dar sua opinião sobre qualquer coisa (um direito básico que qualquer idiota possui) e vir outro boçal interpelar: mas quem é você para opinar sobre canto gregoriano? O que você entende sobre arte conceitual? Etc.

Confesso que o cinema ainda não conseguiu me convencer de seu potencial intelectual. Vejo muitos diretores querendo fazer filmes-cabeça e acabam produzindo filmes-estômago-grosso. Reparem: não tenho nada contra nada intelectual, mas se você quer falar sobre idéias, se quer discutir temas profundos e filosóficos, eu sinceramente sugiro que você escreva um livro. O filme mais intelectual do mundo é raso comparado a um livro mediano que fale do mesmo assunto.

Não é que o cinema seja um meio inferior à mídia impressa, mas somente que cada meio é maximizado pra uma coisa. É mais fácil fazer uma graphic novel intelectual (posso pensar em várias) do que um filme de idéias.

Enfim, assisti King Kong e cinema, meus amigos, cinema é isso.

A Tirania das Legendas

Os últimos filmes que assisti nos Estados Unidos foram fantasias de ação com belíssimos visuais: As Crônicas de Nárnia e King Kong. E recuperei um prazer antigo: sentar no gargarejo, com a cara enfiada na tela, tendo que mexer o pescoço pra acompanhar a ação, como se eu estivesse dentro do filme.

Esse é um prazer que o brasileiro infelizmente não tem. Afinal, a gente só vê filme legendado e não dá pra ler legenda desse jeito. O brasileiro típico chega na sala de exibição e vai direto pras cadeiras do fundo. Assistem cinema como se fosse televisão. Na prática, só o que vêem é aquela telinha lá longe. As cadeiras da frente só são ocupadas se o cinema lotar.

Aqui, observei o contrário. Eu entro nas salas e o pessoal está todo concentrado do meio pra frente. O fundão, lugar de quem não quer prestar atenção na aula, fica vazio: afinal, ninguém paga 9 dólaras pra gazetear o filme.

Dublagem vs Legendas

Filme dublado é uma merda, mas vamos combinar o seguinte: as legendas sacrificam o lado visual e a dublagem sacrifica o lado sonoro. Cabe a cada um decidir qual é a sua prioridade.

Acho meio ridículo quem tem devoção religiosa a qualquer um dos métodos. Já falei sobre isso uma vez e teve gente que veio aqui dizer (e não foi só uma, e estavam falando sério) que as legendas estavam acabando com a língua portuguesa:

É uma pessoa com visão curta, que acha que não entender o filme, ouvir a voz do ator que interpreta o personagem e por cima de tudo não conseguir ver metade da obra por estar lendo letrinhas, é melhor do que compreende a obra, ASSISTIR e se divertir. É lamentável que a maior parte das pessoas "cultas", acham que ser inteligente é "assistir" (se é que conseguem) filmes legendados, porque isso "é ser intelectual". Porque essa pessoa não vai morar em algum país de língua inglesa??? Porque viver num país tão "medíocre" como o nosso amado Brasil? Porque, já que é tão inteligente, ele não é reconhecido e famoso, na sua profissão? Porque as pessoas acham que o português é tão ruim assim??? Pra esse tipo de pessoa só tenho uma coisa a dizer: POBRE PESSOA DE ESPÍRITO PEQUENO, LAMENTAVEL QUE TENHA UMA INTELIGENCIA TÃO MEDÍOCRE.
Vocês reparem que segui o conselho dela e vim morar nos Estados Unidos. Leia a discussão original, foi bem interessante.

Enfim, se você não entende nada da língua, eu digo que dublagem é muito melhor. Andei fazendo uns testes com filmes japoneses, indianos e russos que aluguei aqui. Sinceramente, aqueles caras falam e você jura que eles estão tirando uma da sua cara. Que eles estão só fazendo ruídos aleatórios. Que quando bater a claque, vão virar pro lado e falar em alguma língua de gente - língua de gente, claro, é a que você entende.

Em casos como esse, você não ganha nada assistindo o filme legendado. Melhor acionar a dublagem e pronto. Pelo menos você presta atenção nas imagens.

Por outro lado, se você fala a língua, a coisa já fica mais complicada. Confesso que acho ridículo ver a Naomi Campbell, Marcello Mastroiani ou Antonio Banderas falando português - tão estranho quanto ver a Lucélia Santos falando chinês. Não tem nada a ver. Pelo menos pra mim, isso cria um elemento bizarro tão estranho que afeta o meu prazer. Eu simplesmente não consigo "comprar" o De Niro falando português, não rola.

Eu sugiro somente que meus leitores não tenham obssessão religiosa por legendas. Se o filme for mais visual, considerem assisti-lo dublado ou, se conseguirem, em som original. Fico pensando que assistir Lawrence da Arábia legendado, por exemplo, não deve ser a mesma coisa.

Em qualquer cena belíssima, complexa, explosivamente visual, garanto que você perde muita, muita coisa se ficar lendo letrinha.

Feedback da Platéia

Tem gente que acha que o cinema tem que ser um templo da arte, pra onde as pessoas vão em massa para ter uma experiência quase religiosa, de degustação intelectual, em silêncio, no escuro, com seriedade.

Meu deus, que gente chata.

Outro dia, assisti O Sexto Sentido em dvd e não foi a mesma coisa. Quando assisti no cinema, tinham seis adolescentes na minha frente que gritavam como se não houvesse amanhã. Aquela cena da menina babada aparecendo dentro da tenda, que achei uma das mais aterrorizantes da história do cinema, perdeu metade da sua força sem os gritos daquelas meninas.

Assisti King Kong às quatro da tarde de sexta feira, primeiro fim de semana das férias de inverno, primeiro fim de semana do filme em cartaz. O cinema estava cheio de adolescentes. Adolescentes são o máximo. Eles são a platéia perfeita. Se você erra, eles caçoam sem piedade. Mas se você acerta, eles vibram sem medo.

A cena da luta do King Kong com os dinossauros foi uma das coisas mais sensacionais que já assisti em uma sala de cinema. Os adolescentes acompanharam tudo como se fosse um jogo de futebol americano, com torcida, gritos, suspiros e apitos, fazendo aaahhhs, ooouchs e ierfghs. Uma delícia.

Tenho certeza que será decepcionante rever essa cena em dvd. E não vai ser pelo tamanho da tela.

Finalmente, Kong

Naomi Watts é perfeita.

Jack Black, que interpreta o malvado empresário, também é bom mas, sei lá, he's too 90's. Eu tenho certeza que não havia ninguém com aquela cara na década de 30. A gente fica achando que, a qualquer minuto, Silent Bob vai aparecer pra jogar RPG com ele.

Adrian Brody é primeiro action hero judeu que eu consigo lembrar. Não que eu esteja reclamando. Ele é o tipo de ator que você espera ver em um filme do Woody Allen, falando de Kierkegaard em algum restaurante caro de Manhattan, e foi interessante colocá-lo pra fugir de dinossauros no meio da selva.

E ainda pensei: porra, que merda. Primeiro, esse macaco na década de 30. Depois, na década seguinte, ele vai pra Polônia, e pimba, dá merda de novo. Onde será que ele estava na década de 50? Dien Bien Phu? Algéria?

Um Homem de Verdade

O mais incrível do filme foi uma enorme mudança de eixo que Jackson conseguiu fazer com algumas mudanças mínimas.

A história original era um típico enredo de mocinho, mocinha e monstro: mocinha é raptada pelo monstro, mocinho a salva, fim. O Kong de 2005, pelo contrário, é um triângulo amoroso: mocinho ama mocinha, gorila ama mocinha, mocinha ama... os dois!

Na verdade, estou sendo generoso com o mocinho. Ele é claramente a terceira roda. Quando ele aparece para salvar a mocinha do monstruoso gorila e ela está dormindo placidamente na mão do amado, só ele não percebe que está interrompendo um idílio amoroso.

Embora o mocinho corra mil perigos e desafie a morte certa para salvar a mocinha (se ele tivesse visto o que Kong fez com três tiranossauros, não teria se arriscado), ela não faz nada por ele. Ela até cede ao mocinho, mas tudo o que ela faz é pelo gorila.

Fica claro quem estava sobrando na história.

A melhor cena, no sentido que define o filme e o diferencia de tudo o que veio antes, é quando o mocinho aparece para salvar a mocinha do terrível gorila e dá pra ver que ela está considerando seriamente se vai com ele ou fica com seu macacão.

Essa resenha de Meghan O'Rourke para a Slate está simplesmente perfeita:
Darrow, played by Naomi Watts, actually falls for Kong; she's been handled roughly in the past, and something about Kong's protection of her makes her feel that, at last, she's met a guy who can commit. Before meeting Kong, she appears to have fallen for Jack Driscoll, who in Jackson's version is a socially progressive playwright. But when Kong fights off several vicious dinosaurs to save her?valiantly swinging from vine to vine and being careful not to crush her in his gigantic palm?she knows she's encountered a creature whose devotion won't flag, as she can't help fearing Driscoll's will. The two engage in the most delicate of romances: She dances for him; he laughs; they watch the sunset together, and, later still, manage to squeeze in an ice-skating session (one of the film's most unexpectedly winning scenes). When the time comes to be saved, she's reluctant to leave him. And little wonder: Here's a muscle man who shares her idea of quality time - and has an aura of nobility, to boot. (...)

King Kong is a film that implicitly suggests that traditional manliness (strength and courage) is the essential fabric of romance and that women value protection above all. Jack Driscoll's cerebral devotion pales in comparison to Kong's, even though he bravely tracks her down in the lair of the beast. When Driscoll shows up to save Darrow, she couldn't be less impressed; this liberal-minded wordsmith can't protect her the way Kong can from the fanged monstrosities prowling through the tropical night.
Um belíssimo filme.


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