Corporativista, não

Brasil · 8/04/2009 - 12h46 - 55 Comentários

Li atento os comentários de vocês todos. Corporativista, não. Me recuso a aceitar esta acusação. É de todo injusta.

Em 2005, a Polícia Federal consumou a Operação Cevada, prendendo por sonegação de impostos a diretoria da Cervejaria Schincariol. Dentre as várias escutas legais realizadas, uma flagrou uma conversa entre o diretor-superintentente da cervejaria, Adriano Schincariol, e o publicitário Luiz Lara. Lara sugeriu ao empresário que garantia uma capa da revista IstoÉ Dinheiro por um milhão de reais.

Algumas semanas depois, havia uma capa favorável à Schin nas bancas.

Vocês não me ouviram soltar um pio em defesa de qualquer um. Mas aquela investigação foi impecável. A Polícia tinha por missão investigar um grupo particular de pessoas e não se desviou um único segundo de sua missão. A PF tampouco deixou de registrar os dois fatos isolados aos quais tinha acesso. Uma conversa, capturada por escuta legal, e uma capa algumas semanas depois. Os agentes não insinuaram nada, não teorizaram, disseram apenas: temos essa informação, temos essa outra, nenhuma mais.

A Editora Três negou enfaticamente que vende reportagens ou capas, o leitor que faça seu julgamento.

Se a polícia tiver indícios de que um jornalista ou um veículo de imprensa comete crime: que chantageia, que frauda, que sonega, não importa, tem a obrigação de investigar seguindo a lei. Uma investigação porque deu vontade, uma investigação paralela à principal, é ilegal. Aqui nos EUA, quando a gravação das conversas de alguém é autorizada, as falas de seu interlocutor são apagadas. Só é possível levar à Justiça, legalmente, aquilo que o investigado falou. E se acaso o conteúdo de uma dessas conversas vaza, o oficial responsável vai de presto para a geladeira. É considerado ofensa gravíssima. Os cuidados com a privacidade dos cidadãos, de qualquer cidadão, são absolutos.

As suspeitas delirantes do delegado Protógenes Queiroz, no Brasil, vão a público e são levadas a sério. Se ele estiver certo, isto quer dizer que qualquer um com poder manipula toda a imprensa no país – seja por ingenuidade dos jornalistas, seja por corrupção. E mais: se Protógenes está certo, tudo parece ocorrer entre repórter e fonte sem que editores-chefes, diretores de redação e donos de jornal o percebam. As redações devem ser um mundo de ingênuos. E se jornais são preparados assim, o que resta? Rigorosamente nada, já que 95% do que blogs publicam é aquilo que foi lido na imprensa.

A questão, aqui, é de princípios. Polícia não sai investigando quem quer na base do não deve, não teme. Isto é o que acontece em ditaduras. Porque, um dia, enquanto investigam o banqueiro, decidem bisbilhotar uns jornalistas. Amanhã, bisbilhotam uns médicos, ou uns advogados. Depois, como quem não deve, não teme, é um grupo de estudantes. Aí, quando a polícia se vê no direito de investigar todo mundo quando bem entende e tirar de cacos de conversas as conclusões que bem quiser, em que tipo de Estado chegamos? No limite, é o mundo do pastor Martin Niemoller.

Mas não chegaremos ao limite porque o Brasil é um país de leis e delegado que comete excessos vai para a geladeira.

Senhores: há manipulação correndo solta. Daniel Dantas não é o maior bandido no país. Daniel Dantas é um homem com muito dinheiro e que, a um tempo, teve uma quantidade absurda de poder. Como ele, há alguns outros no Brasil. E homens como ele se envolveram numa disputa pesadíssima, de jogo sujo, pelo controle de uma das companhias mais rentáveis do Brasil. Neste jogo pesado, uma parte do governo se envolveu. É uma história absurdamente complexa na qual não há um único inocente.

Quem quer provar com todas as forças que um lado é pior do que o outro, quem escreve sobre um lado sem jamais acusar o outro, é que está manipulando. É claro que o maniqueísmo, a escolha do herói delegado e do bandido banqueiro, é mais fácil de processar. Quando há um herói injustiçado e um vilão se dando bem, páginas e páginas de indignação podem ser escritas.

Só que um Estado de leis não vive de suspeitas lançadas ao vento e policiais não são pagos para deixar sua imaginação fluir. São pagos para levantar fatos e se ater a eles. Quando competentes, levantam fatos o suficiente para levar quem quebrou a lei à prisão. Quando incompetentes, não o fazem.

Eu sei bem o que devia estar fazendo neste momento: calar a boca. Deveria ser um blogueiro de direita e, como eles, fazer ironias mais ou menos grosseiras enquanto busco uma desculpa para bater no governo. Ou, então, deveria vestir meu manto de blogueiro de esquerda, defensor dos oprimidos, fazer de Protógenes santo padroeiro e ‘do orelhudo’ o vilão incorrigível que deve ser posto em cana, lei e procedimentos são apenas um detalhe vago. Deveria censurar comentários que não são favoráveis, deveria falar em código – imprensa golpista, chapa branca, o que for. Basta cair a um dos extremos, na blogosfera política, que os leitores vêm e os links brotam.

O problema dos extremos é que eles não revelam a complexidade dos fatos. O jogo que Daniel Dantas jogou não é limpo, mas ele é o lado que perdeu a disputa. Quem venceu jogou melhor o mesmo jogo. Tanto, aliás, que venceu. Protógenes Queiroz excedeu suas funções e policiais, numa democracia, têm que andar numa linha extremamente rígida sem qualquer flexibilidade. Policiais não são pagos para imaginar e suspeitar.

E é claro que a realidade como ela é, sem heróis ou vilões, mas com todo mundo meio sujo em diferentes gradações, não desperta emoções fortes daquelas que mobilizam legiões. Não dá pra levantar bandeira. Dá apenas um certo sentimento de náusea, cansaço, desânimo. O mundo complexo tem disso: não tem um lado certo muito claro e as soluções são meio difíceis de encontrar. Este não será um post popular e serei, como abaixo, acusado de muitas coisas.

Não há posts relacionados.