Sábado, 2 12 2006...9:57
Toda vez que eu ligo o carro o planeta morre um pouquinho
Quando ligo o carro - e são raras as vezes em que faço isso durante a semana - sei que estou fazendo uma coisa feia, muito feia. Porque a consciência é um poder e, bem, quem assistiu ao Homem-Aranha sabe que um poder é uma grande responsabilidade. Blá, blá, blá. E eu sei que quando percorro dez quilômetros em um carro eu estou movendo um veículo muitas vezes mais pesado que meu corpo para me transportar. É um desperdício de energia, é pouco inteligente e é deseducado usar um instrumento como esse para fins banais.
Alem disso, carros são feios, ocupam espaço e, na cidade, não são velozes. São mais parecidos com uma pequena parte de uma grande máquina de fabricar stress. E para onde você olha vê essas pequenas partes, cada uma com apenas um passageiro, a atulhar as ruas. Se ao menos fossem menores, mais de acordo com suas cargas habituais, talvez não fossem tão idiotas. A maioria das pessoas nem pensa nessas coisas e não consigo evitar de achá-las tão idiotas quanto, com suas mãos no volante.
Acima de tudo, carros colaboraram com o efeito estufa. Em média, em um ano despejam no ar o seu próprio peso em dióxido de carbono. O efeito estufa é um problema que muitas empresas se empenham em provar que não existe, financiando pesquisas para corroborar suas tecnologias poluidoras até que essas tecnologias dêem o máximo de lucro ou a vida no planeta se acabe. O que vier primeiro.
Tenho certeza de que as gerações futuras, se gerações futuras houver, olharão para trás e dirão que seus antepassados eram muito estúpidos por terem usado veículos da maneira como usaram.
Estou lendo o livro Bilhões e Bilhões, de Carl Sagan - que traz essas idéias mais aprofundadas, mas ainda ao alcance de nós, leigos -, e separei um trecho que me faz pensar um pouco além disso - ainda mais - na hora de ligar o carro.
O custo do óleo cru nos últimos anos tem sido cerca de vinte dólares por barril. Mas as forças miliatres dos Estados Unidos receberam a missão de proteger as fontes estrangeiras de óleo, e concede-se considerável ajuda financeira a algumas nações em grande parte por causa do óleo. Por que devemos fingir que isso não faz parte do custo de óleo? Toleramos vazamentos de petróleo ecologicamente desastrosos (como o do Valdez, da Exxon) por causa de nosso apetite por petróleo. Por que fingir que isso não faz parte do custo do óleo? Se acrescentarmos essas despesas adicionais, o preço estimado se tornará cerca de oitenta dólares por barril. Se então adicionarmos os custos ambientais, o preço real será talvez centenas de dólares por barril. E quando a tentativa de proteger o óleo provoca uma guerra, como por exemplo a do golfo Pérsico, o custo se torna mais elevado, e não apenas em dólares. (Capítulo 12 - Fuga da Emboscada - Bilhões e Bilhões - Carl Sagan).
Então, você que acha cara a gasolina, depois de ler isso pensa que até que ela está saindo barata do ponto de vista de sua conta bancária.
Mas, na verdade, você está em dívida. Petróleo é desperdício em todos os sentidos. De ar, de saúde, de vidas em guerras, de mar. De tudo. Desperdício. É burrice. É incapacidade de olhar um pouco além do aqui e agora. Como as pessoas que lavam calçadas usando água potável. Mas isso é uma outra história para ser contada em outra ocasião.
Sagan dedica o capítulo ao incentivo da busca e ao uso de tecnologias produtoras de energia mais limpas. Claro que de nada adiantam carros elétricos se eles tiverem baterias com chumbo, altamente poluidor, ou se a energia elétrica for originada em poluidoras termelétricas.
Só para arrematar, eis a prova que considero definitiva quanto à existência do efeito estufa como um problema real, presente no mesmo capítulo do livro Bilhões e Bilhões:
Tempestades violentas e outros extremos do clima que são provocados pelo efeito estufa, enchentes, secas e assim por diante poderiam “levar a indústria à bancarrota”, diz o presidente da Associação de Resseguros Norte-Americana. Em maio de 1996, citando o fato de que seis dentre os dez piores desastres naturais na história do país ocorreram na década anterior, um consórcio de companhias de seguros norte-americanas patrocinou uma investigação do aquecimento global como causa potencial. Companhias de seguro alemãs e suíças têm pressionado para que se diminuam as emissões de gases-estufa.
Companhias de resseguro são assim uma espécie de seguradoras das seguradoras, uma garantia de que há liquidez nesse mercado. Elas não pediram isso porque são boazinhas. Em última instância, a única coisa que respeitam é dinheiro. E, se elas se portam desse jeito, a coisa é séria.
Pense nisso quando ligar o carro.
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