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© Gláucia Rodrigues
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Na época seu interesse era voltado para a microscopia eletrônica?
— Sim. Eu fui a Chicago aprender microscopia eletrônica para usar em minhas pesquisas. Quando cheguei lá já tinha assunto, que era o estudo da pineal e sua inervação simpática durante o desenvolvimento. Descobri uma função nova para o retículo endoplasmático liso. Naquela época achava-se que as vesículas sinápticas da noradrenalina eram produzidas somente no aparelho de Golgi, no corpo dos neurônios, e daí migravam para a periferia. Eu consegui demonstrar que elas podem ser produzidas também nos terminais simpáticos pelo retículo endoplasmático liso. Apresentei esse trabalho em um simpósio na Finlândia e ele foi muito bem recebido e muito citado. Depois, já na UFMG, iniciamos uma nova linha de pesquisas sobre as lesões do sistema nervoso autônomo na doença de Chagas e fizemos algumas descobertas interessantes. Nesse ponto eu me aposentei e fui para a zoologia. Conceição continuou ativíssima nessa mesma linha de pesquisa onde está até hoje.
O senhor também montou o laboratório de microscopia eletrônica, não é?
— Coordenei um projeto para montar o Centro de Microscopia Eletrônica do Departamento de Morfologia do ICB. Mas isso foi exceção. Eu sempre usei todo o meu prestígio na universidade para não ser nada.
Como assim?
— Eu nunca quis concorrer para chefe de departamento, reitor, diretor, nem nada, com medo de ganhar. Nunca quis cargos burocráticos. Mas aceitei o desafio de montar o Centro de Microscopia Eletrônica porque tinha um bom currículo e era o mais qualificado para isso.
Por que decidiu, depois da aposentadoria, fazer um novo concurso?
— Eu era neurobiólogo e tinha um hobby, que era estudar libélulas. Quando me aposentei decidi fazer concurso de novo, para zoologia. Assim, o que era hobby virou profissão. Como um homem não deve viver sem hobby, comecei um novo, que foi escrever livros infantis e peças de teatro.
Quando o senhor escreveu o primeiro?
— Foi há 20 anos, O menino e o rio. Fui de férias para a praia, comecei a escrever e saiu uma porcaria. Sem querer, eu usava linguagem científica. Resolvi então contar a história para uma criança imaginária no gravador e o texto melhorou muito. Hoje não preciso mais do gravador. Agora vou lhe fazer uma pergunta: você acha que o fato de ser cientista me ajudou ou atrapalhou?
Eu acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra.
— Estou de acordo, mas muitas pessoas acham que tem. Existe um preconceito que cientista não sabe escrever livro para criança. Mandei O menino e o rio para a Editora Ática. Depois de um ano me devolveram. Disseram que como literatura não servia porque ensinava coisas e como ecologia também não, porque tem bicho que fala, o que não é verdade. Fiquei muito chateado e desanimado e percebi que escritor iniciante, principalmente se for cientista, não tem vez. Nessa época quem leu O menino e o rio, gostou e me animou muito foi meu grande amigo Oswaldo Frota-Pessoa. Foi então que o André Carvalho, da Editora Lê, soube do livro e me pediu os originais. Ele foi publicado, está com 25 edições e ainda é um dos livros infantis de maior sucesso da Editora Lê.
É o que mais vende?
— Hoje não, mas mantém uma boa vendagem. No ano passado, a Secretaria de Educação de Belo Horizonte comprou 10 mil exemplares para distribuir nas escolas. Houve outras dificuldades. Uma crítica de literatura infantil escreveu que aquilo não era literatura, porque ensinava ciência e a mistura não dava certo.
Essa discussão foi superada?
— Não. Até hoje ainda existe a postura de que cientista não sabe escrever literatura. Guimarães Rosa e Pedro Nava, que eram médicos, sabiam. Mas cientista não. Ainda há uma corrente na literatura infantil para a qual ela tem de ser só ficção. Uma vez tive uma discussão cordial sobre isso com a professora e crítica de literatura Marisa Lajolo. Na ocasião, eu disse a ela, “Veja se é verdade ou ficção: o que você acha de uma abelha que tenta copular com uma flor?”. Ela brincou, “Vai nascer uma florbelha”. Eu insisti, “É ou não é verdade?”. E expliquei que é verdade, sim. A flor libera uma substância que atrai a abelha para a cópula e ao tentar copular ela se lambuza de pólen e vai polinizar outra flor. Para conseguir se reproduzir, a flor engana a abelha que quer copular com ela. Isso não pode ser usado num livro? E, se for, não é literatura? Ora, a realidade, às vezes, é mais fantástica do que qualquer ficção. Bem, hoje meus livros já são bem aceitos pela crítica, pelos colegas e principalmente pelas crianças.





