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Source:  http://www.jornalopcao.com.br/index.asp?secao=Imprensa&subsecao=Colunas&idjornal=261
Goiânia, 30 de julho de 2009
De: 28 de outubro a 03 de novembro de 2007

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  Imprensa

Euler de França Belém
ffeubel@uol.com.br

Salvador da pátria
 

A imprensa goiana agora trata Paulo Baier, um jogador mediano, como oráculo. "Goiás não cai nunca", diz título do Diário da Manhã, reproduzindo uma fala de Baier.

Se o time cair, os jornalistas terão de fretar um veículo blindado para o “craque” fugir de Goiânia.


 
Jornal de Brasília é o governo de Roriz
 

Joaquim Roriz: governo paralelo
Tido como homem de proa do grupo do ex-senador renuncista Joaquim Roriz (PMDB)— ao lado de Valério Neves Campos —, o empresário Marcos Pereira Lombardi, o Marcola, comprou o Jornal de Brasília por 12 milhões de reais. Lourenço Rommel Ponte Peixoto recebeu 9 milhões e Fernando Câmara, 3 milhões. Este ficou com o parque gráfico, em sociedade com Marcola.

O mercado de Brasília não entendeu por qual razão Marcola, dono de uma rede de postos de gasolina, investiu tanto dinheiro na aquisição de um jornal deficitário. As dívidas do JBr superam 20 milhões de reais. A perplexidade também tem a ver com o fato de Marcola não entender nada de jornal. "Ele entende tanto de jornalismo quanto de viagens espaciais", ironiza um jornalista brasiliense. "Não se trata de lavagem de dinheiro, nem por parte de Marcola nem de Roriz", diz um deputado ligado aos dois. "É um investimento como outro qualquer. O que é deficitário hoje pode ser lucrativo amanhã." O parlamentar admite que a compra do JBr tem a ver mais com "poder". Roriz, por intermédio de Marcola, quer mostrar ao governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), que ainda tem algum poder e que, assim, terá de ser considerado agora e na sucessão de 2010. "Arruda não vai mandar em Brasília sozinho. Roriz não é um morto-vivo", diz o aliado do ex-senador. É o recado do ex-mandachuva de Brasília. O grupo planeja investir em rádios no DF e no Entorno do DF.

Se Roriz, o chefe de Marcola, quer acossar Arruda, garantindo-lhe que está vivo politicamente, como vai manter o Jornal de Brasília? Com verbas do governo do Distrito Federal, pois a iniciativa privada da capital ainda não mantém seus dois principais jornais, o JBr e o Correio Braziliense. Portanto, apesar de se postar como uma possível ameaça, o jornal deve adotar uma posição conciliatória, ao mesmo tempo rorizista e governista.

Roriz adquiriu o seu "governo", o Jornal de Brasília; resta saber se este "governo paralelo" lhe dará poder real.


 
Fernando Câmara
 

Ao vender sua parte no Jornal de Brasília, o empresário Fernando Câmara ficou com o controle do parque gráfico e vai continuar imprimindo o jornal, que dirigiu por mais de 40 anos.

Fernando Câmara planeja comprar uma nova impressora com o objetivo de prestar serviço para donos de pequenos jornais. Ele será um possível concorrente do Correio Braziliense, com a vantagem de que também fará o trabalho de fotolito.

Fernando Câmara, por sinal, continua acionista da Organização Jaime Câmara.


 
TV Brasília volta ao grupo do Correio
 

O grupo que dirige os Condomínios Associados recomprou a TV Brasília e vai revitalizá-la. O objetivo é fortalecer os negócios na capital, como o Correio Braziliense e duas rádios.

A TV Brasília era controlada pelos empresários José Celso Gontijo e Paulo Octávio (vice-governador do Distrito Federal).


 
A casa dos espíritos
 

Jornalistas da Rádio 730, como o ótimo Marcelo Heleno (meu colega do curso de jornalismo da UFG), costumam dizer: "A última entrevista em vida de Cora Coralina" e "A última entrevista em vida de Pedro Ludovico".

Ora, exceto no Diário da Manhã, jornal no qual a editoria mais movimentada é a do Além-Túmulo, ninguém concede entrevista depois de morto.


 
Desvio ético
 

Pop apaga o nome da TV Record
Na reportagem "Missão complicada", do Pop (enviada pela Agência Estado), há uma fotografia de Rogério Ceni (edição de quarta-feira, 24). O goleiro do time do São Paulo é entrevistado por dois jornalistas, um da Rádio Globo. O segundo jornalista, Roberto Tomé, da TV Record, teve a marca da empresa que trabalha raspada do microfone.

A TV Record está crescendo e ameaça a hegemonia da TV Globo. Embora uma empresa do grupo do Pop, a TV Anhanguera, seja retransmissora da programação da Globo, o editor do jornal, João Unes, um profissional sério, não pode permitir este tipo de comportamento na redação que dirige. O Pop fica menor ao cometer esse tipo de desatino.


 
Pop deixou de ser pudico
 

Na quarta-feira, 24, provando que está deixando de ser um jornal conservador, e aderindo ao liberalismo sexual do mundo moderno, o Pop publicou uma pintura (tudo indica que é um quadro) com três peladões, dois deles com os pênis à mostra.


 
A pauta travada
 

A reportagem "Religião X Homossexualismo", de Moacir Cunha Neto, do Diário da Manhã, contém alguma "falhas" (as aspas querem dizer, admito, que são discutíveis).

Primeiro, ao optar pela palavra "homossexualismo", e não homossexualidade, o autor do texto estaria dizendo que se trata de uma "doença"? Pelo conteúdo da reportagem, não. No entanto, na primeira página, na qual se usa a palavra homossexualidade, o jornal optou por um título, "Estou curado", que valida a tese da "doença". Mesmo assim, a chamada lacônica não diz quem está “curado” e a reportagem não conta nenhuma história de alguém que tenha sido “curado”. A falha, portanto, não é do repórter, mas do editor da capa.

Segundo, numa discussão tão delicada, na qual os evangélicos são apresentados como porta-vozes do atraso, por que pastores evangélicos não foram ouvidos?

Terceiro, se existem homossexuais que "deixaram" de ser homossexuais, como afirma o psicoterapeuta e pastor João Batista Caldeira da Silveira, por que eles não foram ouvidos? Seria, é, importante saber a opinião deles, ouvir suas histórias. As vozes deles, seus motivos, são mais essenciais do que a fala do pastor.

Como a questão é complexa, de ampla subjetividade, este tipo de reportagem exige maior esforço e seriedade. O ser humano é muito mais complexo do que percebe a vã sabedoria jornalística.


 
A força da fraqueza
 

"Caiado controla 90 por cento do DEM", diz reportagem do Diário da Manhã, assinada por Wilson Coelho.

Ora, 90 por cento do DEM e quase-nada são a mesma coisa. Faltou ao repórter discutir a debilidade política do DEM, que, na última eleição, quando estavam em disputa 41 vagas na Assembléia Legislativa, 17 vagas na Câmara Federal, uma vaga para senador e uma vaga de governador, elegeu apenas um deputado federal, Ronaldo Caiado, e dois deputados estaduais, Nilo Resende e Helio de Sousa.


 
Rosenwal é o mais influente
 

A revista Marketing em Goiás, editada pelo jornalista e empresário Iúri Rincon, entrega o troféu Os Mais Influentes da Comunicação na terça-feira, 30, às 20 horas, no Clube Jaó.

O jornalista Rosenwal Ferreira venceu João Unes (segundo colocado) e Vassil Oliveira (terceiro colocado) como o jornalista mais influente. Não deixa de ser interessante que o Pop, maior jornal do Estado em circulação (o Daqui é do ramo popularesco), não tenha conseguido eleger o jornalista mais influente.

A Cannes é a agência de publicidade mais influente. Marcos Antônio, da AMP, faturou o prêmio de dono de agência mais influente.

O curso de publicidade da Universidade Federal de Goiás perdeu o posto para o curso da Universidade Católica de Goiás.


 
Shakespeare do Cerrado
 

O jornalista Rosenwal Ferreira está escrevendo uma peça de teatro para os divertidos atores caiporas Nilton Pinto e Tom Carvalho.

A comédia será encenada em 2008.


 
Crítico de Sahium
 

O colunista social Arthur Rezende, do Pop, diz que, ao contrário do que publiquei, faz, sim, críticas à administração do prefeito de Anápolis, Pedro Sahium.

Para dar sustentação ao programa Applauso, que completou 9 anos, Arthur Rezende vai lançar um blog na internet, em 2008.


 
Feito inédito
 

Ulisses Aesse é o único jornalista brasileiro que acredita que José Dirceu é "vítima de uma grande armação política".

Talvez Ulisses Aesse, titular da coluna Café da Manhã, do Diário da Manhã, esteja certo, por vias indiretas: José Dirceu caiu mesmo "vítima de uma grande armação política"... dele mesmo, que não deu certo.

A grande ilusão do Diário da Manhã é acreditar na volta por cima, em termos políticos, de José Dirceu. Em termos financeiros, ele deu a volta por cima, ao se tornar consultor de grandes empresários, como o bilionário mexicano Carlos Slim.


 
Terceirização
 

A Organização Jaime Câmara está terceirizando grande parte de seus serviços. A ordem na empresa é contenção geral de despesas.


 
Rei do gerúndio
 

Vários jornalistas escrevem para dizer que Jarbas Rodrigues Jr., titular da coluna Giro, é o "rei do gerúndio". "Você não tem dó do gerúndio?", pergunta, brincando, uma repórter do Pop.

Não. Tenho dó do Jarbas, que não tem dó do gerúndio. O?fato é que, apesar disso, Jarbas melhorou muito.


 
O réquiem de Roberto Mangabeira Unger
 

Mangabeira Unger
Li a entrevista de Roberto Mangabeira Unger ao Diário da Manhã e só posso dizer que é lamentável. Não pelas perguntas do repórter, que não é identificado, e sim pelas respostas quase infantis do ministro do governo Lula.

No final da entrevista, o que é muito estranho para alguém que se diz "filósofo", Mangabeira Unger ensina: "Nós [Ele e o presidente Lula] estamos unidos. O que nós [erro do jornal, o certo é nos] une não é o passado. O que nos une é o futuro". Ora, um filósofo não pode deixar de perceber que o futuro é filho do passado e do presente. Kant e George Sant´Anna certamente morreriam de rir do risível "filósofo".

Não tem nada mais provinciano do que publicar fotografia de entrevistado famoso lendo o jornal no qual deu entrevista. O Diário da Manhã publicou, na primeira página, fotografia de Mangabeira Unger, o homem que não fala nem inglês nem português, folheando o jornal. Nos grandes jornais, é proibido, porque, no lugar de revelar força, seria sinônimo de fraqueza.

Nada mais estranho do que dizer que a visita de Mangabeira Unger ao Diário da Manhã foi "especial". Os leitores provavelmente não entenderam o motivo de a visita ter sido "especial".


 
A armadilha do anabolizado Daqui
 

Resultado de sua imensa circulação — quase 40 mil exemplares diários —, o Daqui começa a ter anúncios privados.

Publicitários consultados pelo Jornal Opção avaliam que o Daqui está numa encruzilhada. "O jornal tende a ser escravo do brinde pelo resto da vida, pois certamente não vai conseguir consolidar leitores. Os indivíduos que compram o jornal pelo brinde não são necessariamente leitores. Se não fosse o brinde, eles provavelmente dariam preferência aos jornais televisuais mais violentos", avalia um premiado publicitário.

Outro publicitário afirma que, em pelo menos cinco edições, o Daqui devia retirar o brinde para testar a fidelidade dos leitores. "Tenho a impressão que, se retirar o brinde, a circulação cai 70 por cento." A tendência, portanto, é manter os anabolizantes.

O jornalista Nilson Gomes, observador atento, esteve numa banca na manhã de sexta-feira, 26, e percebeu que, enquanto o Daqui era bem vendido, o Diário da Manhã e o Pop continuavam intactos. A Organização Jaime Câmara sabe como vender um jornal popular, mas não sabe como vender um jornal conservador como o Pop.


 
Pirataria em série
 

O Jornal Opção e o poeta e tradutor Ivo Barroso denunciaram que a Editora Martin Claret pirateou A República, de Platão, e As Flores do Mal, do poeta francês Charles Baudelaire. Feita a denúncia, recebo informações, de várias partes do Brasil, que sugerem que a Martin Claret pode ter criado a indústria da pirataria aplicada aos livros.

A editora estaria sendo processada pela Companhia das Letras, por ter plagiado uma tradução de Kafka feita por Modesto Carone, e é acusada de piratear obra publicada pela Editora 34 e traduzida do russo por Boris Schnaiderman, o decano dos tradutores da língua de Púchkin e Tchekhov.

A Editora Hedra publicou Metamorfoses, de Ovídio, com tradução de Bocage, e teve parte das notas, escritas por João Ângelo Oliva Neto, copiada pela Martin Claret.

Pode-se dizer que os melhores profissionais da Martin Claret não são os editores e tradutores, e sim os datilógrafos ou as pessoas que trabalham com scanner.


 
Derrapadas do Terrível
 

O decano dos colunistas políticos goianos, Ivan Mendonça, cometeu dois erros na coluna Fio Direto, do Diário da Manhã. A secretária da Educação de Goiás, Milca Severino Pereira, foi aplaudida de pé, na Assembléia Legislativa, durante homenagem aos professores, quando discursava. Ivan, o Terrível, disse que o aplaudido foi o senador Marconi Perillo.

Na sexta-feira, 26, O Terrível publicou: "No lançamento do Programa de Desenvolvimento da Educação, o deputado Thiago Peixoto, do PMDB, reinou sozinho no vácuo de Alcides Rodrigues". "Reinou" e "vácuo" não são termos apropriados para explicar o que aconteceu, pois, durante o encontro, falaram apenas o ministro da Educação, Fernando Haddad, a secretária Milca Severino, a secretária de Educação Básica do MEC, Maria Pilar Lacerda, e o governador Alcides Rodrigues. O parlamentar não discursou.


 
Minérios e nova colônia
 

Os jornalistas Cleybets Lopes (edição) e Caroline Oliveira, Rodrigo Viana e Ton Alves escreveram um belo e surpreendente caderno, "Riquezas Mineiras de Goiás", publicado pelo Diário da Manhã.

Recolho um trecho do caderno: "Em 2006, ressalva Ovídio [de Ângelis, secretário de Comércio Exterior), foram exportados 76 milhões de dólares, no total. Neste ano [2007], o acumulado de janeiro a setembro já soma 467 milhões de dólares [o Diário da Manhã certamente errou: são 467 milhões de reais], cerca de 290 milhões somente em nove meses. ´Vamos passar de 600 milhões até o final deste ano´, avalia".

"O sulfeto de cobre, diz o secretário, teve forte expressão no acumulado de janeiro a setembro deste ano nas exportações, com mais de 273 milhões de dólares", relata o Diário da Manhã.

A primeira página do jornal "revela": "Subsolo goiano possui, aproximadamente, 1,57 trilhão de reais em minérios". A reportagem confirma o valor e acentua que só as reservas de ouro respondem por 1,54 trilhão de reais. Não sei se o Diário da Manhã está inteiramente certo, mas talvez tenha faltado explorar melhor os números. O jornal deveria ampliar a discussão do impacto da exploração mineral na economia do Estado, ou se, no fundo, Goiás continua sendo explorado como uma colônia.


 
Nova agência
 

Os empresários Viviane Vecci e Weslei César Gomes Costa abrem em janeiro a agência Clarin Comunicação e Marketing. A empresa vai atender o mercado privado e trabalhará também com marketing político.

A empresa paulista Observatório de Sinais está recrutando profissionais para a Clarin.

A Clarin alugou sede na Rua S 6, no Setor Bela Vista, em Goiânia. Viviane Vecci vendeu sua parte na Cambury para o ex-marido Giuseppe Vecci.


 
Marconi na Alfa
 

Leitores perguntam o que acho de as Faculdades Alves Faria (Alfa) terem criado uma "turma" do curso de Direito exclusiva para o senador Marconi Perillo e para sua mulher, Valéria Perillo.

A criação da "turma" pode ser ilegal, como denuncia o Ministério Público Federal. Mas é legítimo que o tucano estude, e com isto não está prejudicando a sociedade, e se torne um senador mais competente, discutindo melhor os temas nacionais.


 
O Céline da Colômbia?
 

Num texto correto sobre o escritor colombiano Gabriel García Márquez, autor das obras-primas Cem Anos de Solidão e O Amor Nos Tempos do Cólera, o repórter Rogério Borges, do Pop, comete um deslize, se posso dizer assim. "Ele [García Márquez] não dá a menor bola para as críticas que recebe por ainda acreditar no comunismo cubano ou por ser amigo próximo de Fidel Castro", escreve o jornalista.

Rogério Borges baseia-se em alguma declaração de García Márquez para fazer uma afirmação tão peremptória? A "declaração" infelizmente não é mencionada. Se García Márquez "disse" que não se importa com as críticas por ter como ídolo um político responsável por um regime que matou cerca de 30 mil pessoas numa ilha de 10 milhões de habitantes e persegue implacavelmente seus críticos, inclusive pares do autor de Ninguém Escreve ao Coronel (novela que põe no chinelo Memória de Minhas Putas Tristes), como Guillermo Cabrera Infante, que teve de fugir do país (morreu na Europa), o que devemos pensar dele? Duas interpretações são possíveis.

Primeiro, é possível que García Márquez se importe, sim, com as críticas, pois, como escritor moderno, certamente não se considera tão dinossauro quanto Fidel Castro. Há informações de que, nos bastidores, chegou a interferir, junto ao rei cubano, por alguns dissidentes. Segundo, se não se importa com as críticas, revela-se um profundo mau caráter. Entretanto, se isto o diminui como homem, não o diminuiu como escritor, embora seja possível sugerir que García Márquez, por não ser capaz de se reinventar, estagnou.

O francês Louis-Ferdinand Céline era fascista, atacou com virulência os judeus, e, embora desprezível como homem, era um grande escritor.


 
Sacerdócio e Hércules
 

Quase todo proprietário de jornal defende a tese de que jornalismo é sacerdócio... para jornalistas, não para os donos.

Jávier Godinho escreveu um texto apresentando alguns jornalistas do Diário da Manhã como se fossem heróis, tanto por terem resistido à crise quanto por elogiarem o dono do jornal, Batista Custódio. Jávier resiste a entender que, enquanto os jornalistas receberem do jornal, qualquer elogio que fizerem ao patrão será suspeito.

Batista Custódio tem méritos, certamente muitos, pois não é fácil manter um jornal diário num Estado no qual a iniciativa privada avalia que não precisa de jornais independentes do governo do Estado, mas, felizmente, até para ele, não é Deus. Nem Hércules.


 

Vírus letal

Um leitor insiste que escrevi, pela segunda vez, que o senador Marconi Perillo é governador de Goiás.

Como já disse, contraí o vírus transmitido pelo “Diário da Manhã”.

Zeca fora

O happy hour da Brahma não é “hora feliz”, porque, segundo sua publicidade, isto lembra homossexuais. Estranhamente, o movimento gay não se manifestou.

A agência de publicidade contratada pela Brahma, aproveitando o nome de Zeca Pagodinho, diz que sua “hora alegre” é “Zeca hora”. Zeca, na linguagem do povão, é pênis.

Deusimar Rolim

O procurador da República aposentado Deusimar Rolim, um homem profundamente ético e intelectualmente respeitável, fez uma defesa consistente, do ponto de vista jurídico, do direito de o senador Marconi Perillo fazer o curso de Direito na Alfa.

O que surpreende é que nenhum jornalista que acompanha o senador tenha escrito pelo menos uma linha em sua defesa.

Razões dos ataques

Numa entrevista ao jornalista Rosenwal Ferreira, no programa “Opinião e Debate”, da TV Brasil Central, o senador Marconi Perillo disse que não está rico, ao contrário do que dizem os boatos, e que entende que está sendo atacado porque tem futuro político.

A entrevista, polêmica, deveria ter provocado debate na mídia goiana.

Eminência nem tão parda

Ivan Mendonça, da coluna “Fio Direto”, do “Diário da Manhã”, diz que o general Golbery do Couto e Silva é “considerado eminência parda do regime militar implantado em 1964”.

Ivan ignora que, se participou dos governos de Castello Branco e Ernesto Geisel, Golbery não participou dos governos de Costa e Silva e de Emilio Garrastazú Medici, e participou apenas de parte do governo de João Figueiredo (saiu porque o presidente não quis apurar o atentado do Riocentro). Pode ter sido eminência parda do governo de Castello Branco e, sobretudo, do governo de Geisel, mas não de todo o regime militar. Surpreendentemente, nos governos de Costa e Silva, de Medici e mesmo de Figueiredo, Golbery era considerado uma espécie de “eminência vermelha” (comunista, o que, claro, nunca foi).

Mônica Veloso é nossa amiga

O engraxate baiano Zé Carlos (craque da graxa) pergunta para mim e para o jornalista Wilson Silvestre: “Como faço para adquirir uma ‘Playboy” com as fotos [sou tempo em que se falava fotografia] da Mônica Veloso?” Digo que não sei, que a revista acabou em poucas horas nas bancas. “Mas o que você achou das fotos?”, pergunta, interessado, Zé Carlos. Digo que as fotografias são excelentes e pergunto: “Por que você se interessa tanto pelo exemplar ‘da’ Mônica?” Zé Carlos se explica: “Amigos, os meus clientes não falam de outra coisa. Eu apresento a bandeirinha Ana Paula, mas todos querem saber é da Mônica”.

Zé Carlos, bem informado — sua clientela inclui jornalistas, advogados, promotores e juízes —, diz que ficou sabendo que uma irmã de Mônica vai posar nua para a “Playboy”. “Já encomendei a revista”, diz. “Me contaram que ela é supimpa.” Gostei do “supimpa”. (Há poucos dias, fiquei surpreso quando ouvi Zé Carlos dizer a palavra “moco”, que eu não ouvia há pelo menos 28 anos. Moco é sinônimo de bobo, mas é uma palavra falada mais no Norte de Goiás. Lembrei-me, imediatamente, do moco Policarpo. Certa vez, durante um mutirão para limpar pasto, policiais apareceram e disseram que estavam à procura de um marginal. Todos correram, menos Policarpo. Um policial gritou: “Por que você não correu?” Tenso, Policarpo respondeu: “Eu sou moco”. O policial chutou-lhe a bunda e disse: “Moco, nada, seu peste!” Tempos depois, Policarpo, moco de verdade “ma non troppo”, contava a história, rindo muito, deliciado.)

Fico impressionado com a intimidade com que tratamos “a” Mônica Veloso, como se fosse um parente ou uma amiga.

O escândalo do padre

O escândalo envolvendo o padre Júlio Lancelotti vai ser explorado com as cores do sensacionalismo por três motivos. O padre é petista, homossexual e famoso.

O trabalho que Lancelotti faz há anos pelos menores e mendigos será jogado no lixo em questão de semanas. A hipocrisia social reza que, quando alguém cai, é preciso pisoteá-lo.

Estou dizendo que Lancelotti não deve ser investigado? Não. Estou sugerindo que um pouco de nuance não faz mal ao esclarecimento dos fatos.

Eletricistas e encanadores

O Brasil precisa de bons eletricistas e encanadores. Mas descobriu a pólvora ao aceitar a tese — cubana? — de que todos devem ter curso superior, ainda que de fachada.

Se precisar de um bom eletricista, ou de um encanador, você está perdido.

Como todos querem ter curso superior, o governo federal deveria criar cursos de eletricista e encanador com duração de um ou, no máximo, dois anos. Seria uma pequena revolução. Mas os “educadores” querem grandes revoluções, que não ocorrem mais, felizmente.

Propaganda enganosa?

A publicidade da Unip, que garante que seus formados em Direito são campeões em aprovação na OAB de São Paulo, é divulgada nos meios de comunicação de Goiás.

Por que não divulgar os índices de aprovação em Goiás?

O (homem) incomum (de) de Philip Roth

O surpreendente no romance “Homem Comum” (Editora Companhia das Letras, 131 páginas, 2007, tradução de Paulo Henriques Britto), de Philip Roth, é que, apesar da secura (apropriada para um relato sobre um velho — são forma e conteúdo aglutinados), há poesia.

Há trechos que, de tão bonitos, beiram à pieguice. “Iam [o Homem Comum e sua filha Nancy) ao parque, e lá ficavam só os dois, suas sombras e a luz” (página 60).

É notável, shakesperiano-hamletiano, a conversa do Homem Comum com os ossos dos pais, no velho e mais ou menos abandonado cemitério judeu, e com o coveiro que certamente iria enterrá-lo. “Sua mãe morrera com oitenta anos, seu pai com noventa. Disse ele, em voz alta, para os dois: ‘Estou com setenta e um anos. O filho de vocês está com setenta e um anos’. ‘Bom. Você viveu’, respondeu a mãe, e o pai disse: ‘Olhe para trás e expie as coisas que você pode expiar, e aproveite o que lhe resta’. Ele não pôde continuar. A ternura estava fora do controle. Tal como o anseio de que todos estivessem vivos. E de ter tudo aquilo de volta outra vez”.

Roth captura bem as diferenças de perspectivas entre dois irmãos que se amam. O Homem Comum está doente e o irmão Howie, o Homem Sadio, vai visitá-lo e o encontra ao lado de Phoebe, uma mulher doce e, até certo ponto (o limite da traição), compassiva. O relato do narrador: “Howie lhe disse, em voz baixa: ‘Desta vez você arranjou uma garota legal. Não vá fazer uma besteira. Não deixe esta moça ir embora’”. A reação do Homem Comum, irmão mais novo de Howie: “Ele [o Homem Comum] pensou, feliz por haver sobrevivido: como pode uma pessoa ter uma vontade de viver tão contagiante quanto Howie? Que sorte a minha ter um irmão como ele!”

Roth é implacável em vários momentos: “... não há como refazer a realidade. (...) O jeito é enfrentar. Segurar as pontas e enfrentar. Não há outra saída” (página 61); “A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre” (página 114); “... a intensidade mais perturbadora da vida é a morte” (página 122).

Sugiro aos leitores que, depois da leitura, vasculhem os sebos em busca de “Patrimônio — Uma História Real” (Editora Siciliano, 203 páginas, 1991). Nesse romance, conta-se a história de Herman Roth, o pai canceroso de Philip Roth. A última frase do romance é: “Não se deve esquecer de nada”. Muito do que há em Patrimônio (o título tem a ver com a merda, cocô mesmo, do pai que Philip Roth teve de limpar) ajuda a entender (o) Homem Comum.

Doris Lessing revela a década da liberdade

Leitores ressalvam que falo mais da autobiografia da escritora Doris Lessing do que de seus romances. Eles têm razão. O romance mais emblemático de Doris Lessing é O Carnê Dourado (Editora Record). Foi tido como “bíblia do feminismo”, o que certamente reduziu sua força entre os leitores e críticos mais perspicazes como Harold Bloom (que mantém um olhar pouco atento à prosa de Toni Morrison, que acusa de “marxista” e “feminista”). O livro contém muito mais do que feminismo e guarda certa ironia em relação à “luta” das mulheres. Ironia, por sinal, acentuada nas memórias. Uma edição melhorada de O Carnê Dourado faria muito pelos leitores brasileiros de Lessing (uma autora, de fato, tradicional, na linhagem de Thomas Mann). Uma nova tradução de “Mulheres Apaixonadas”, um empreendimento de Renato Aguiar, fez muito por D. H. Lawrence (sobre quem Lessing escreveu muitíssimo bem, ainda que admita que, hoje, o prosador e poeta inglês não lhe diga tanto quanto em certa época de sua vida. Penso diferente, mas tenho a metade da idade de Lessing).

Dos romances recentes de Lessing, “O Sonho Mais Doce” é o que li com mais prazer. O livro conta a história da geração da década de 1960 (e mesmo da geração anterior, que chegou relativamente encanecida nessa época, porém dando aulas de marxismo e defendendo a União Soviética), dando a atmosfera do período — o que os livros de história às vezes não captam —, e avançando um pouco mais, exibindo a corrupção num país africano devastado pela Aids. A médica Sylvia, uma londrina magrinha, simpática e abnegada, vai para trabalhar na África e descobre que líderes negros não diferem de muitos líderes brancos. Roubam o dinheiro e os sonhos de seus povos.

O “Sonho Mais Doce” é um relato vívido, sem condescendência com a esquerda, mas também sem o tom típico da crítica de direita, do cotidiano e da vida intelectual de Londres. Lessing mostra, com sensibilidade, o velho auto-engano da esquerda londrina, exemplificada no stalinista Johnny, marido de Frances e recrutador de militantes comunistas. Johnny, como García Márquez, ama Fidel Castro e mente que lutou na Guerra Civil Espanhola. Nas reuniões, mune-se do jargão marxista para combater o “imperialismo ianque”, dizendo compreender o mundo, mas deixando de compreender suas mulheres e filhos. Johnny, como a maioria dos esquerdistas, não sabe olhar para o indivíduo, pois quer salvar a humanidade. Só o coletivo tem importância, nunca o indivíduo, aquele que estar ao lado. Quando um de seus filhos, Colin, escreve um romance em que disseca sua família, Johnny o arrasa, dizendo que se trata de uma obra burguesa e que, por isso, nada tem a dizer de luminoso. Iluminista, mesmo, só o marxismo recriado pelos soviéticos.

Frances não é marxista e entende melhor o mundo, seus filhos e seus parceiros, inclusive o próprio Johnny, que é pura superfície, quando sugere, pelo contrário, que é todo profundo. Os filhos de Frances e Johnny não perdoam os pais liberais, que enchiam a casa de garotos da classe média abandonados pelos pais ou que fugiam dos pais. Os homens do romance de Lessing têm carne e osso, não são caricaturas, embora figuras reais, críveis, semelhantes ao marxista-stalinista Johnny e os africanos Mo e Franklin, possam eventualmente parecer caricaturas. Mas é visível que as mulheres, Júlia, Frances e Sylvia (um tanto quanto fantasmal, é possível ressalvar, pois fica-se com a impressão de que, a qualquer momento, vai levitar), são mais bem construídas e, de certo modo, têm mais humanidade, talvez porque percebam, com mais delicadeza, o indivíduo no meio da massa.

No romance, como nas memórias, Lessing diz que Stálin é “pior” do que Hitler.

Para entender Faulkner

Um livro de história pode ajudar a entender melhor a literatura de um país? Certamente que pode. “Gerações de Cativeiro — Uma História da Escravidão nos Estados Unidos” (Record, 444 páginas, 2006), de Ira Berlin, pode contribuir para que a prosa de William Faulkner e Toni Morrison, para citar dois autores que escreveram sobre negros, seja melhor compreendida.

“Gerações de Cativeiro” resulta de uma pesquisa rigorosa, mas escrita num tom que escapa ao academicismo tradicional. Lido o livro, que relata o massacre dos negros, mas também suas lutas pela liberdade, com organizações extremamente disciplinadas, o leitor certamente entenderá melhor a razão de Faulkner construir personagens, e não apenas negros, tão complexos e, às vezes, malditos, como o protagonista do romance “Luz em Agosto”. Da escravidão, origem da “maldição” apontada por Faulkner, sobretudo no Sul dos Estados Unidos, não poderia resultar mesmo muita doçura.

O amor judeu de Mussolini

Leio no “Clarín” a respeito do lançamento na Argentina do livro “El Amor Judío de Mussolini: Margherita Sarfatti — Del Fascismo al Exilio” (Editorial Lumiere, 208 páginas), do jornalista Daniel Gutman. Traduzo, com alguma liberdade (e com meu espanhol capenga), trecho da resenha: “Em novembro de 1938, quando Benito Mussolini lançou uma campanha anti-semita inspirada por seus aliados nazistas, milhares de judeus foram expurgados da sociedade italiana. Entre os que partiram para o exílio havia uma mulher culta e refinada, crítica de arte, que havia sido amante do Duce durante cerca de 20 anos. Margherita Sarfatti, filha de uma rica família judia de Veneza, era considerada por muitos a mulher mais poderosa da Itália fascista. Mussolini, no entanto, nada fez para protegê-la”.

Continua a recensão: “Ansiosa por fugir de uma Europa donde se avizinhava a guerra, Margherita — que em 1934 havia sido recebida na Casa Branca pelo presidente [Franklin Delano] Roosevelt — tentou entrar nos Estados Unidos. Mas então havia se convertido numa pessoa indesejável”.

“Fascista”, para alguns, embora judia, Margherita refugiou-se, durante sete anos, no Uruguai e na Argentina. Na Argentina, era protegida de Victoria Ocampo. Uma de suas irmãs foi deportada para Auschwitz.

García Lorca

Leio no “El Universal”, do México, a respeito do lançamento do livro “El Hombre que Detuvo a García Lorca” (Editor Aguilar).

O hispanista Ian Gibson conta a história de Ramon Ruiz Alonso, tipógrafo e político de extrema direita, “considerado responsável pela prisão de Federico García Lorca e supostamente relacionado com a denúncia que motivaria o fuzilamento do poeta”.

O regime de Franco, diz Gibson, tentou apresentar o assassinato do poeta e dramaturgo como “acidental”. O pesquisador revela que os matadores de Lorca consultaram, por telefone, o general Gonzalo Queipo de Llano. Para matar um homem conhecido como Lorca tinham de obter autorização.

Gibson diz que a extrema direita odiava a fama e o gênio de Lorca, mas também o condenava por ser homossexual e de esquerda.

Idiossincrasia de um jornal

É difícil entender certas idiossincrasias da imprensa. Na sexta-feira, 26, a “Folha de S. Paulo” publicou uma análise do filme “O Passado”, de Hector Babenco — “Babenco se perde em drama” —, de autoria de um crítico respeitável, Inácio Araújo.

Noutro texto, “Não se faz arte para provar nada”, a professora universitária Noemi Jaffe analisa o livro “O Passado”, de Allan Pauls, e também o filme.

Se o filme não é lá essas coisas, e “tem situação de dramaturgia mal armadas”, como assinala o jornal, porque merece mais destaque do que o livro? O texto que analisa o filme tem 3.336 caracteres, 570 palavras e 49 linhas. O texto que discute (mais) o livro tem 1.230 caracteres, 223 palavras e 22 linhas.

“Ah, o mercado”, dirão os editores do jornal. O filme, afinal, está indo para os cinemas. O livro foi lançado há algum tempo.

Sociedade ideal é ficção

Daniel Puglia escreve, na revista “Panorama da Literatura Americana”, uma publicação da revista “EntreLivros”, que “As Aventuras de Huckleberry Finn”, de Mark Twain, é visto “como o grande romance sobre o ideal da democracia americana, um ideal jamais alcançado”.

Surpreende que um crítico inteligente como Daniel Puglia tenha coragem de escrever que a sociedade norte-americana não é democrática. E não há, claro, sociedade ideal, exceto em literatura ou na “prosa” marxista; há, isso sim, sociedade possível. Ele deveria ler Alexis de Tocqueville e Hannah Arendt.

Na mesma revista, Oscar Pilagallo escreve que o escritor Nathaniel Hawthorne é “pouco conhecido no Brasil”. O jornalista cita tão-somente dois livros de Hawthorne publicados no país: “A Letra Escarlate” e o divertido mais inexpressivo “Vinte Dias com Julian & Coelhinho, Por Papai” (José Olympio).

Pilagallo não cita “A Casa das Sete Torres” (Abril Cultural) e “O Fauno de Mármore” (Nova Fronteira). Ao contrário do que diz o jornalista, os livros mais importantes de Hawthorne foram publicados no Brasil.

A revista muda o nome de Edmund Wilson para “Edmundo”.

Os textos de Marcelo Pen (sobre Henry James), de Rodrigo Garcia Lorca (Walt Whitman) e de José Lira (Emily Dickinson) são impecáveis.



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