Visit Citebite Deep link provided by Citebite
Close this shade
Source:  http://www.jornalopcao.com.br/index.asp?secao=Imprensa&subsecao=Colunas&idjornal=259
Goiânia, 09 de agosto de 2009
De: 14 a 20 de outubro de 2007

  .:: Editorial
  .:: Conexão
  .:: Ponto de Partida
  .:: Poderes
  .:: Bastidores
  .:: Reportagens
  .:: Entrevistas
  .:: Direto do Oriente Médio
  .:: Ideias
  .:: Economia
  .:: Dissonância
  .:: Cartas
  .:: Imprensa
  .:: A Semana
  .:: Mundo
  .:: Opinião Jovem
  .:: Opção Cultural
  .:: Otávio Lage
(+) listar mais 
  .:: Edições Anteriores
  .:: Contato
  .:: Expediente

Clique aqui para imprimir Clique aqui para enviar essa matéria por e-mail
  Imprensa

Euler de França Belém
ffeubel@uol.com.br

Jornalismo e leite

Juscelino Gomes trocou a TV Brasil Central pelo site da Girgoiás e pela revista Gir Online. O jornalista produz 250 litros de leite por dia na Fazenda Riachuelo, no município de Bela Vista. "Recebo 76 centavos por litro, mas vai cair para 66 centavos."


FUNDAÇÃO GULBENKIAN X MARTIN CLARET
A República da Pirataria

A editora brasileira Martin Claret pirateia A República, de Platão, da Fundação Calouste Gulbenkian, de Portugal

O ideário da Editora Martin Claret, de São Paulo, está exposto no prefácio de todos os livros da coleção A Obra-Prima de Cada Autor: "Nosso objetivo principal é oferecer, em formato de bolso, a obra mais importante de cada autor, satisfazendo o leitor que procura qualidade. (...) ´A Obra-Prima de Cada Autor´ é uma série de livros composta de mais de 300 volumes, formato de bolso, com preço altamente competitivo e encontrável em centenas de pontos de venda. (...) Nossa proposta é a de uma coleção aberta quantitativamente. (...) Nós acreditamos na função do livro". Os textos foram extraídos das páginas 9 e 10 do prefácio da edição de A República, do grego Platão. As edições da Martin Claret têm um mérito, talvez o principal: preço bem inferior aos praticados por outras editoras. Ao lado da gaúcha L&PM, a paulista Martin Claret certamente é a principal responsável por outras editoras, como Companhia das Letras, primeiro, e Record, em seguida, terem lançado edições de bolso com preços acessíveis, na faixa de 13 a 31 reais. O romance O Processo, de Franz Kafka, custa 13 reais pela L&PM e 21 reais na versão da Companhia das Letras. Com esmeradas traduções diretas do alemão. A qualidade das edições de bolso da Martin Claret em geral não compromete. O papel é bom, as capas são chamativas, talvez até demais. O corpo (tamanho) das letras é pequeno, mas nada que impeça a leitura. Entretanto, há um problema, e grave, pelo menos na edição de A República.

A Martin Claret publicou A República, livro basilar de Platão, em 2001. A tradução é do “misterioso” Pietro Nassetti, mas não há referência a respeito do ponto-de-partida. Ou seja, não há nenhuma informação se a tradução foi feita a partir do original grego ou se teve como base alguma tradução inglesa, alemã ou francesa. Sobretudo em livros de filosofia, assim como de poesia, as editoras costumam fazer questão de explicitar que a tradução foi feita a partir da língua de origem. Leitores mais dedicados, principalmente professores de filosofia, certamente vão optar por uma tradução, no caso de Platão, feita diretamente do grego. Estudantes, não apenas de filosofia, preferem em geral edições mais em conta, como a da Martin Claret, que tem 320 páginas e custa apenas 10,50 reais. A edição portuguesa custa impraticáveis 87 reais.

Como se trata de edição popular, supostamente não dedicada a especialistas, embora mantenha notas de rodapé relativamente detalhadas, a tradução da Martin Claret é fluente e chamou a atenção do professor Gonçalo Armijos Palácios, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Goiás. Ao confrontar a edição de A República da Fundação Calouste Gulbenkian (localizada em Lisboa, Portugal), celebrada pela qualidade e requinte, com a da Martin Claret, o doutor em filosofia, que sabe grego, ficou estupefato. As duas traduções eram idênticas. Ou melhor, só existia uma tradução, a da Fundação Calouste Gulbenkian. A Martin Claret é responsável por uma edição pirata (leia no box que o proprietário da editora admite a pirataria).

Maria Helena da Rocha Pereira é responsável pela tradução, notas e introdução de A República, na edição da Fundação Caloustre Gulbenkian. A versão tem como ponto de partida o grego e a primeira edição é de 1972. A versão examinada pelo Jornal Opção é a 7ª edição, de 1993. Trata-se de uma edição muito bem-cuidada. No final da introdução, Maria Helena — o que prova que se trata de uma especialista, não de uma mera tradutora (obras filosóficas costumam exigir tradutores que conheçam filosofia, senão terão de passar por uma revisão técnica acurada) — anota: "Para a versão que agora se apresenta, seguiu-se escrupulosamente o texto estabelecido por J. Burnet, no quarto volume da sua edição dos Platonis Opera para a Scriptorum Classicorum Bibliotheca, Oxford University Press, reimpressão de 1949". Maria Helena ressalva, mostrando seriedade e respeito ao trabalho alheio, que serviu-se, ao traduzir Platão, de outras versões, aparentemente do grego para o inglês. Além da detalhada introdução, a tradutora oferece uma bibliografia sobre Platão, notas detalhadas e, ao final, um "índice de assuntos principais".

O que fez a Martin Claret? A editora brasileira, que está sendo comprada por uma editora de outro país, tão-somente jogou fora o aparato crítico, a introdução, resumiu as notas e republicou, sem citar a fonte, o texto integral da versão da Fundação Caloustre Gulbenkian (na página 4, o destemido editor escreveu: “Copyright Editora Martin Claret, 2001). O "tradutor" sequer teve o cuidado de fazer as adaptações de praxe para o português escrito e falado no Brasil. Ele (um fantasma?) faz apenas mudanças ligeiras —como a troca de efectivamente por efetivamente. Observe o leitor que, no início da "versão" brasileira, da Martin Claret, tenta-se disfarçar o plágio, com uma ou duas mudanças cosméticas, mas, em seguida, não se altera uma vírgula. É possível desconfiar que não há um tradutor "brasileiro", e sim um datilógrafo brasileiro, e, provavelmente, um revisor brasileiro. O leitor poderá identificar, facilmente, que há mudanças, bem leves, só no início dos capítulos; depois, a tradução é a mesma.

Um jornalista-historiador como Eduardo Peninha Bueno, que inventou a história como pilhéria, diria que o Brasil, ao pilhar Portugal, finalmente se vingou do colonialismo? É provável. Mas esse tipo de "vingança", uma antropofagia celerada, em nada engrandece o Brasil.

Trechos

Trechos do Livro I/Fundação Gulbenkian

"Ontem fui até ao Pireu com Gláucon, filho de Aríston, a fim de dirigir as minhas preces à deusa, e, ao mesmo tempo, com o desejo de ver de que maneira celebravam a festa, pois era a primeira vez que a faziam. Ora a procissão dos habitantes dessa terra pareceu-me linda; contudo, não me pareceu menos aprimorada a que os Trácios montavam. Depois de termos feito preces e contemplado a cerimónia, íamos regressar à cidade". (Página 1.)

"— Ouve então. Afirmo que a justiça não é outra coisa senão a conveniência do mais forte. Mas porque não aprovas? Não quererás fazê-lo?" (Página 23.)

Trechos do Livro I/Martin Claret

"Fui ontem ao Pireu com Glauco [note, leitor, que há um pequena mudança de "Ontem fui" para "Fui ontem" e a grafia de Gláucon passa a ser Glauco], filho de Aríston, com o objetivo de fazer minhas orações à [até aqui, talvez para disfarçar, há também uma ligeira alteração] deusa, e, ao mesmo tempo, com o desejo de ver de que maneira celebravam a festa, pois era a primeira vez que a faziam. Ora a procissão dos habitantes dessa terra pareceu-me linda; contudo, não me pareceu menos aprimorada a que os Trácios montavam. Depois de termos feito preces e contemplado a cerimônia [aqui, a editora adaptou para o português escrito no Brasil, que usa o acento circunflexo no lugar do agudo], íamos regressar à cidade". (Página 11.)

"— Ouve então. Afirmo que a justiça não é outra coisa senão a conveniência do mais forte. Mas por que não aprovas? Não quererás fazê-lo?" Neste trecho (página 25), só uma alteração (“porque”, na portuguesa, e “por que”, na brasileira). O tradutor nem tenta adaptar o português luso para o português patropi.

Trechos do Livro II/Fundação Gulbenkian

"Ditas, portanto, estas palavras, julgava eu que estava livre da discussão. Mas, de facto, era apenas o prelúdio, ao que parece. Efectivamente, Gláucon, que é sempre o mais destemido em tudo, também nessa altura não aceitou a retirada de Trasímaco, e disse: — Ó Sócrates, queres aparentar que nos persuadiste ou persuadir-nos, de verdade, de que de toda a maneira é melhor ser justo do que injusto?" (página 53)

"— Eu, por mim, concordo em tudo com esse padrões — declarou —, e seria capaz de os tomar como leis." (Final do livro II, página 100.)

Trechos do Livro II/Martin Claret

"Pronunciadas estas palavras [note, leitor, que a mudança é só início do texto], julgava eu que estava livre da discussão. Mas, de fato [aqui, o revisão trocou facto por fato], era apenas o início [trocou-se prelúdio para início], ao que parece. Efetivamente [retirou-se o c], Glauco, que é sempre o mais destemido em tudo, também nessa altura não aceitou a retirada de Trasímaco, e disse: — Sócrates, queres aparentar que nos persuadiste ou persuadir-nos de verdade, de que toda maneira é melhor é melhor ser justo do que injusto?" (página 44)

"— Eu, por mim, concordo em tudo com esse padrões — declarou —, e seria capaz de os tomar como leis". (Final do livro II, página 73.)

Trechos do Livro III/Fundação Gulbenkian

"— Quanto aos deuses, aqui temos, pois — disse eu — aquilo que, em meu entender, aqueles que hão-de honrar as divindades e os pais, e que hão-de ter em não pequena conta a amizade uns dos outros, devem ouvir desde a infância, e aquilo que não devem." (Página 101.)

"Portanto, por todos estes motivos — prossegui eu — diremos que é necessário prover deste modo os guardas de habitação e do resto, e legislaremos sobre o assunto ou não?

"— Absolutamente — confirmou Gláucon." (Página 160.)

Trechos do Livro III/Martin Claret

"— Em relação aos deuses, aqui temos, pois — disse eu — aquilo que, em meu entender, aqueles que hão de honrar as divindades e os pais, e que hão de ter em não pequena conta a amizade uns dos outros, devem ouvir desde a infância, e aquilo que não devem." (Página 74. As pequenas mudanças, com o suposto objetivo de esconder a pirataria, não alteram fundamentalmente a tradução da Fundação Gulbenkian.)

"Portanto, por todos estes motivos — prossegui eu — diremos que é necessário prover deste modo os guardas de habitação e do resto, e legislaremos sobre o assunto ou não?

"— Certamente — confirmou Glauco." (Página 111.)

O "tradutor" — ou o revisor, ou o datilógrafo — tão-somente trocou "absolutamente" por "certamente". O restante do texto é idêntico. Até a nota de rodapé é a mesma.

Leia mais no site do Jornal Opção na Internet (www.jornalopcao.com.br).

Editor admite plágio

O editor Martin Claret, dono da Editora Martin Claret, admite que "sua" edição de A República, de Platão, é plágio da edição da Fundação Calouste Gulbenkian. Em contato telefônico com o Jornal Opção na quarta-feira, 10, Martin Claret disse que encomendou a tradução ao italiano Pietro Nassetti e só ficou sabendo "há quatro ou cinco meses" que ele apenas "copiou" a tradução portuguesa. "O italiano Pietro Nassetti, tradutor do inglês e do italiano, faleceu há dois anos." Ele existe mesmo?, pergunta o Jornal Opção. "Ele morreu", insistiu.

Martin Claret diz que está providenciando nova tradução. "Nossa versão será feita a partir do inglês, porque fica mais barato do que traduzir do grego. Pedimos desculpas aos leitores." O editor diz que também estuda entrar em contato com a editora portuguesa, para tentar obter a autorização legal da tradução. O fato é que pode ser processado.

A Martin Claret pôs no mercado 500 títulos. "Somos uma editora de médio para pequeno porte." Ele diz que o grupo espanhol Santillana quer comprar a Martin Claret. "É impossível resistir ao assédio dos espanhóis. Eles compraram a Editora Objetiva, do Robert Feith; quem não vender pode quebrar", disse ao Jornal Opção.

Flores roubadas do jardim alheio
IVO BARROSO

"As Flores do Mal" – Charles Baudelaire – texto integral – Tr. Pietro Nassetti - Editora Martin Claret (São Paulo, 2001) – 192 págs. R$19,00

Já tivemos aqui a oportunidade de mostrar como algumas obras literárias estão sendo criminosamente "apropriadas" por editores inescrupulosos e reeditadas sob o nome de falsos tradutores. No caso anterior, vimos como a tradução genial do "Cyrano de Bergerac", de Edmond Rostand, devida ao falecido professor pernambucano Carlos Porto Carreiro, foi simplesmente "clonada" e atribuída a um desconhecido Sr. Fábio M. Alberti, que já devia ficar contente se seu nome aparecesse como autor das notas de pé de página que figuram na edição. Nelas há esclarecimentos sobre personagens e fatos um tanto ou quanto incomuns, pelo menos para a classe de leitores desses livros ditos "populares", vendidos em bancas de jornal. Apressamo-nos em esclarecer que nada temos conta esse tipo de venda e achamos mesmo que se trata de um serviço prestado ao leitor médio, que pode assim adquirir livros de grandes autores a preços inegavelmente convidativos. O que não nos parece ético é o escamoteio e a usurpação do nome dos tradutores originais desses livros, seja pela prática da sua atribuição a outrem, seja pelo artifício vergonhoso do plágio disfarçado.

Nessa última categoria podemos incluir, consistentemente, a edição de "As Flores do Mal", o clássico livro de poemas de Charles Baudelaire, lançada "no verão de 2001" pela Martin Claret, de S. Paulo, em tradução ali atribuída a Pietro Nassetti, que, não se tratando de um pseudônimo de Jamil Almansur Haddad, responde certamente pelo nome de seu plagiário indecoroso, tal a maneira inequívoca com que se apropria da obra alheia.

É sabido que temos no Brasil pelo menos duas edições integrais de "As Flores do Mal". A mais conhecida e, a nosso ver, a mais bem realizada, a de Ivan Junqueira, foi editada pela Nova Fronteira, sendo de 1985 a última reimpressão, com o texto original de face à tradução. Foi essa a escolhida para figurar no volume "Charles Baudelaire – Poesia e Prosa", que organizamos para a Editora Nova Aguilar e que foi editado em 1995, em papel bíblia, reunindo em português praticamente toda a obra do Poeta. A outra, mais antiga, de 1958, editada pela Difusão Européia do Livro na coleção Clássicos Garnier, é de Jamil Almansur Haddad, poeta paulista, autor de "A lua do remorso" (1951), que além de Baudelaire traduziu também "As Líricas", de Safo, "O Cântico dos cânticos", de Salomão, o "Rubaiyat", de Omar Khayyam, o "Cancioneiro" de Petrarca, o "Decamerão" de Boccaccio e as "Odes" de Anacreonte. O leitor, ainda que não versado no assunto, pode bem imaginar o que representa de tempo e esforço a tarefa de traduzir poesia, principalmente no caso de um autor como Haddad que respeita a métrica e a rima existentes no original. Mas hoje parece estar se generalizando a prática certamente recriminável de se tomar um texto preexistente e maquiá-lo, mudando aqui uma palavra mais difícil, ali uma construção mais arrevesada, e, passando por cima dos ditames métricos e rímicos, apresentá-lo ao leitor numa "nova" edição popular, supostamente feita por outro tradutor.

No presente caso a contrafação é tão explícita que chega a ser vergonhosa. Tomemos por exemplo o poema "Hino à Beleza", dos mais característicos do estilo baudelairiano, com seus termos específicos e construções originais. As três primeiras quadras são iguais, ipsis litteris, coincidência que seria impossível de obter-se mesmo no caso de uma prova de tradução à qual se habilitassem centenas de candidatos. "Infernal et divin" é traduzido por ambos como "celestial e daninho"; "le couchant et l´aurore" por "matutina e noturna" e o verso "Qui font le héros lâche et l´enfant courageux" é impressionantemente resolvido da mesma forma: "Se à criança dão valor, tornam o herói covarde". E naquele que encerra o terceiro quarteto: "Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien" – o copiador chegou a incidir no mesmo erro de interpretação do seu modelo, traduzindo "réponds" por "respondes", quando a construção francesa "réponds de rien" equivale a "submeter-se a nada". "Bénissons ce flambeau!" é "Bendito lampadário" em ambos e "tombeau" (túmulo) é transformado também por ambos em "sudário". Há momentos, no entanto, em que o copiador servil resolve "melhorar" (como talvez pense) o texto saqueado. Em geral isso ocorre diante de palavras que ele julga "difíceis" ou pouco atuais. Assim, onde Jamil escreveu "O amoroso anelante a pender sobre a bela", o tradutor-xerox reescreve: "O namorado ofegante a pender sobre a bela", não se importando com isso de sacrificar a métrica do verso. Neste mesmo poema há inúmeros exemplos dessa espécie: "Pisando mortos vais, com ar de desacato" (Jamil) e "Caminhas sobre os mortos, com ar de desacato" ( pseudo tradutor). O "papel carbono" parece ter achado que o "vão" (adjetivo) de "Sobre teu ventre vão dança amorosamente" poderia ser entendido pelos seus leitores como verbo e "conserta" para "Sobre teu ventre orgulhoso dança amorosamente", conseguindo o fenômeno de um alexandrino de 14 versos. Outro: "Beleza! monstro ingênuo e de feição adunca!" lhe soa muito precioso e ele emenda para: "Beleza! monstro ingênuo, assustador e horrendo!" Mas pasmem que temos no início da quinta quadra o que se poderia chamar de dupla coincidência: No verso "Uma efêmera vai ao teu encontro, ó vela", tanto na tradução de Jamil quanto na de seu "vampiro" Pietro Nassetti há uma nota de pé de página dizendo exatamente o mesmo: "Efêmera: substantivo comum, espécie de inseto", que, se não fosse cópia servil seria um caso de duplicidade até na indigência definidora. Estender a amostragem seria recair ad infinitum na certeza que desde já se patenteia de que os poemas apresentados nesta edição de "As Flores do mal" foram subtraídos do berço alheio e criados por pais adotivos em proveito próprio.

Essa prática inescrupulosa da apropriação de traduções alheias – pela cópia deslavada ou enganosa maquiagem – parece estar se ampliando junto a editores de livros em série ou coleções ditas populares. Há muitos títulos de obras clássicas que circulam por aí que, se examinados com cuidado, revelariam – como um triste palimpsesto – o nome apagado e explorado do tradutor original. (Artigo extraído do "Jornal de Poesia" — http://www.revista.agulha.nom.br/ibarroso3.html — editado por Soares Feitosa.)

IVO BARROSO é poeta e tradutor.


Mônica Veloso

Passei em duas bancas de jornais e revistas e indaguei: "Qual foi a pergunta que os clientes mais fizeram nesta semana?" A resposta dos banqueiros: "Chegou a Playboy com a mulher do Renan?"

Um dos jornaleiros disse, antes de a revista chegar: "Perdi a venda de 15 revistas, num só dia". Alguns clientes fizeram encomenda.


Che Guevara romântico é mito gestado pela esquerda

O surrealismo não pegou no Brasil porque até humanistas sérios e sinceros como o escritor e monge beneditino Marcelo Barros têm coragem de escrever um artigo, "A mensagem atual de velhos heróis", publicado no Pop de quarta-feira, 10, para elogiar o anti-humanista Che Guevara e atacar gratuitamente a revista Veja.

Devo dizer, antes de comentar alguns aspectos do artigo, que Marcelo Barros tem o direito de pensar como quer. Feita a ressalva, discuto pontos frágeis de seu texto:

1 — Barros diz que Veja publicou um "artigo rancoroso que tenta denegrir a imagem de um dos homens mais admirados pela juventude". Primeiro, não se trata exatamente de um artigo, e sim de uma reportagem, digamos, analítica. Segundo, Veja mostrou o político verdadeiro que a construção persistente do mito impede que seja visto na sua inteireza. O "artigo" não denigre a imagem de Che. Relata suas ações, sem falsificá-las. Para mostrar Guevara como Cristo da esquerda, o salvador dos socialistas e dos oprimidos, já temos a revista Caros Amigos.

2 — O monge garante que "a maioria dos estudiosos e pesquisadores, como os diversos biógrafos do Che, confirma a motivação ética que o movia e a generosidade com a qual quis conquistar para todos os seres humanos um mundo mais igualitário". Primeiro, Barros não apresenta o nome de pelo menos um estudioso e pesquisador respeitável que possa comprovar o que diz. Segundo, Che era ético? Depende do que se entende por ética. O melhor biógrafo de Che,o jornalista americano Jon Lee Anderson (e não John, como costuma escrever o jornalista Oscar Pilagallo), observa que Che era dado a fuzilar seus adversários. É lícito matar adversários que, presos, não representam mais nenhuma ameaça? O soviético Stálin, um homem honesto, pode ser aceito como ético? Bem, o czar vermelho mandou matar 30 milhões de pessoas. Assim como Mao Tsé-tung mandou assassinar 70 milhões de chineses. O biógrafo Jorge Castañeda também não tem uma visão romântica do sanguinário Guevara.

3 — Depois da queda do Muro de Berlim, da ruína do socialismo soviético e do fracasso da ditadura cubana, que não acabou com a desigualdade social na ilha, é possível falar em "mundo mais igualitário"? O monge tem razão, em parte, pois um "mundo mais igualitário" é o desejo de todos, socialistas e capitalistas. Mas o socialismo gerou um "mundo mais igualitário"? Não gerou. Pelo contrário, nunca se matou tanto em nome da "igualdade", demolindo a idéia de liberdade, quanto nos países socialistas.

Não me desagrada o fato de o monge defender uma sociedade igualitária (embora eu não acredite que isto seja possível), pois o mundo precisa mesmo de visionários, de homens que acreditem verdadeira e não apenas politicamente na justiça social. O que discuto é a escolha de Guevara para o "posto" de herói da juventude. Não seria melhor citar Gandhi? Talvez o inglês Churchill.

O jornalista Ton Alves, do Diário da Manhã, escreveu um material mais nuançado sobre Che Guevara.


A esquerda não morreu

A revista Cult publicou uma edição especial sobre "A renovação do pensamento de esquerda", com textos de Vladimir Safatle, Patrícia Porchat, Miroslav Milovic, Giuseppe Cocco, Christian Ingo Leng Dunker e Douglas Ferreira Barros.

O filósofo goiano Vladimir Safatle, professor da USP que tem sido notado por seus estudos sobre Lacan, escreveu dois artigos: "As incertezas do pensamento da nova esquerda" e "Ontologia e política".


Estranhamento

O Diário da Manha, que nutre paixão desmedida pelos homens do poder, publicou uma entrevista do presidente Lula na terça-feira, 9, mas não esclarece onde o petista foi entrevistado e quem o entrevistou.

O leitor merece saber se a assessoria do presidente enviou a entrevista, se a entrevista foi feita por fax ou internet ou se um repórter deslocou-se a Brasília para conversar com o mandatário-chefe do país.


O novo sócio do Jornal de Brasília

O mercado de Brasília comenta com bico de tucano que o empresário Lourenço Rommel Ponte Peixoto vendeu seus 50 por cento do Jornal de Brasília para o empresário Marcos Lombardi, dono de uma rede de postos de gasolina no Distrito Federal.

Marcos Lombardi, o Marcola, estaria trabalhando para comprar a parte de Fernando Câmara.

Lourenço Peixoto está interessado na aquisição do Tribuna do Brasil.


Escórcio é de Sarney

Em Brasília, até os postes sabem que Francisco Escórcio sempre foi homem da tropa-de-choque do senador José Sarney. Ele estaria "apenas" emprestado para Renan Lampião Calheiros.

Esperto, Sarney ficou quietinho e a mídia, que tem certa paixão pelo coronel do Maranhão, também não fez questão de lembrar que Escórcio tem raízes sólidas no gabinete de Sarney.


Rachel Azeredo

Depois de visitar Nova York, a jornalista Rachel Azeredo reassumiu a apresentação do Goiânia Urgente, da TV Record.


Nobel merecido para Doris Lessing

Raramente um Prêmio Nobel de Literatura foi tão merecido quanto o de 2007 para a escritora britânica Doris Lessing. Trata-se de uma grande prosadora, entre as mulheres, talvez a maior viva. É uma espécie de George Eliot do século 20 (embora continue escrevendo, e com qualidade, Doris Lessing é, essencialmente, uma escritora e mulher do século 20). Seu romance mais famoso é “O Carnê Dourado”, que merece uma tradução mais atenta. Mais do que um romance feminista, como às vezes é apresentado por críticos menos cautos, é uma poderosa interpretação e descrição do universo feminino. É seu livro-símbolo, sua “A Montanha Mágica”.

As memórias de Doris Lessing (em três volumes) são fabulosas. Nelas, sem condescendência, conta do encanto de sua geração pelo stalinismo, do parentesco bem próximo do stalinismo com o nazismo (tende a avaliar o stalinismo como pior) e fala da sexualidade de seu tempo de jovem. Ela sempre foi uma mulher independente mental e financeiramente. Uma Simone de Beauvoir que deu certo.

Os romances de Doris Lessing são ótimos, muito bem escritos, de rara imaginação, mas eu daria o Nobel a Lessing exclusivamente por suas memórias, publicadas no Brasil, em três volumes (o último, romanceado, no estilo do “roman à clef”, o que reduz seu impacto, mas é uma peça literária impecável, com notável interpretação histórica) pela Editora Companhia das Letras. Finalmente, os suecos premiam alguém que, embora tenha sido de esquerda, se tornou crítica da vocação esquerdista para o totalitarismo. A academia sueca pode ser política, mas não é boba.

O próximo Nobel de Literatura deve ser do norte-americano Philip Roth — tudo indica que os suecos não querem premiar americanos — ou do peruano Mario Vargas Llosa. O “problema” de Llosa é simples: não é de esquerda. Lessing não é mais de esquerda e, assim, o próximo Nobel deve ser de alguém de esquerda. Roth é de esquerda? Aproxima-se mais da esquerda, sobretudo porque está se tornando um crítico radical, e nem sempre preciso, do presidente George Walker Bush.

Abaixo, transcrevo texto da Agência EFE a respeito de Doris Lessing.

Escritora britânica Doris Lessing ganha Nobel de Literatura
DA AGÊNCIA EFE

A escritora britânica Doris Lessing, cuja obra contém influências africanas, feminismo e compromisso político, foi agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura 2007, anunciou na quinta-feira, 11, a Academia Sueca.

A autora receberá o prêmio por transmitir a "experiência épica feminina", que descreveu "com ceticismo, paixão e força visionária" a divisão da civilização.

“Trata-se de uma das decisões mais meditadas que já tomamos", disse o diretor da Academia, Horace Engdahl, após divulgar o veredito.

Academia Sueca transforma Lessing na 11ª mulher a receber o prêmio Nobel

A autora estava entre os favoritos ao Nobel há décadas, embora ultimamente seu nome tenha desaparecido das listas, exatamente devido ao longo tempo em que seu nome aparecia entre os candidatos.

Com esta decisão, a Academia Sueca transforma Lessing na 11ª mulher a receber o prêmio. A última mulher a receber o Nobel de Literatura foi a austríaca Elfriede Jelinek, em 2004, e a primeira foi a sueca Selma Ottilia Lovisa Lagerlöf, em 1909.

Nascida em 22 de outubro de 1919 em Kermanshah (atual Irã), filha de britânicos, Lessing é uma escritora que levou boa parte de sua experiência autobiográfica africana a suas obras.

Assim fez em "The Grass is Singing", publicada em 1950, e em boa parte de suas obras posteriores, impregnadas pelas essências do continente africano, onde passou parte de sua vida.

Em 1962 Lessing publicou o romance que a tornou famosa, "The Golden Notebook" [“O Carnê Dourado”], e depois consolidou sua fama com uma série de títulos de temática africana.

Seu compromisso político a levou a criticar abertamente os governos racistas de Rodésia (atual Zimbábue) e da África do Sul, sendo impedida de entrar nestes países.

Sua última obra, publicada este ano, é "The Cleft".

O Nobel de Literatura do ano passado foi para o turco Orhan Pamuk.

O Nobel de Literatura concede 10 milhões de coroas suecas (US$ 1,5 milhão) e será entregue junto aos outros prêmios em 10 de dezembro, aniversário da morte de seu fundador, Alfred Nobel.

Entrevista de Doris Lessing

A entrevista de Doris Lessing, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 2007, pelo conjunto da obra, foi publicada no jornal mexicano "El Universal". Na entrevista, Lessing diz: "Não gosto de dar conselhos. Ninguém pensa que vai envelhecer. A gente não se dá conta de quão rápido vai se envelhecer. O tempo passa muito rápido". No me gusta dar consejos. La cosa es que uno no piensa que va a envejecer. La gente no se da cuenta de lo rápido que va a envejecer. El tiempo pasa muy rápido. Saiu originalmente em 1988 e foi republicada no suplemento cultural "Confabulario", de "El Universal", de foi extraída pelo Jornal Opção.

Ofrecemos al lector fragmentos de una entrevista realizada en 1988 por Robert Gottlieb, editor a la sazón de Doris Lessing (1919), la escritora recientemente galardonada con el Nobel de Literatura. Hay algo en el origen de esta autora que habla de su destino literario: nació en Persia (Irán), creció en Rodhesia (hoy Zimbabwe) y luego vivió en Inglaterra. Su prolífica obra se ha estructurado en torno a la política, la psicología femenina y el retrato conflictivo de jóvenes y viejos. Desde Canta la hierba (1950) hasta The Good Terrorist (1985), la obra de Lessing fluye a través del realismo y la fantasía, la vocación social y la exploración intimista.

“Si los jóvenes supieran, si los viejos pudieran”

Entrevista con Doris Lessing

POR ROBERT GOTTLIEB

Pienso que es usted una escritora extremadamente intuitiva y que, probablemente, no planea mucho las cosas sino que más bien las descubre. ¿Es este el caso?

Sí tengo un plan general, pero esto no quiere decir que no puedan surgir uno o dos personajes extraños conforme avanzo. Sabía lo que quería hacer con The Good Terrorist. El bombardeo de la tienda departamental Harrod´s era el comienzo de todo. Pensé que sería interesante escribir una historia sobre un grupo que se involucraba en el bombardeo, que era incompetente y amateur. El personaje central surgió porque conozco a varias personas como Alice —esta mezcla de persona muy maternal, preocupada por las ballenas, las focas y el medio ambiente, pero que al mismo tiempo piensa, “no puedes hacer un omelet sin romper los huevos”, y que puede considerar matar a cientos de personas sin perturbarse. Mientras más pienso en eso, más interesante se vuelve. Quería personas de todo tipo, de modo que inventé a una pareja de lesbianas. Pero luego lo que me interesó fueron los personajes que surgieron y que yo no planeé, como Faye. Y luego Faye se convirtió en una persona destruida, lo cual me sorprendió. El tal Phillip apareció así: en ese entonces estaba oyendo algo sobre un joven muy frágil, de veintiún o veintidós años, que no tenía trabajo, pero al que siempre le ofrecían empleo las autoridades. De hecho, cargando pesados rollos de papel en camiones. ¡Pensarías que estaban locos! Así que siempre lo despedían a los tres días. Pienso que The Good Terrorist es un libro muy divertido.

¿En serio?

En cierta forma es cómico. Siempre hablamos de cosas como si sucedieran del modo en que se supone que suceden y todo es muy eficiente. En la realidad, la única experiencia que podemos recoger sobre cualquier cosa es que todo está hecho un lío. ¡Todo! ¿Por qué entonces habría de ser esto diferente? No creo en esos terroristas cien por ciento eficientes.

¿Trabaja usted en más de una obra de ficción a la vez?

No, algunas veces ordeno un borrador de algo anterior mientras escribo algo más. Pero por lo general me gusta hacer una cosa después de otra.

Me imagino, entonces, que usted trabaja de principio a fin, más que improvisar…

Así es. Nunca lo he hecho de otra manera. Si escribes a pedazos, pierdes una muy valiosa continuidad en la forma. Es una continuidad interior invisible. Algunas veces simplemente la descubres al tratar de cambiar algo.

¿Piensa usted que ha evolucionado en cada uno de los géneros que ha empleado? Por ejemplo, creo que la perspectiva realista en The Good Terrorist, e incluso algunas veces en los libros de Jane Somers, está menos presente que en su realismo anterior.

Probablemente se deba a mi avanzada edad. Nos despreocupamos. Veo cada libro como un problema que hay que resolver. Eso es lo que dicta la forma que uso. No es que diga; “Quiero escribir un libro de ciencia ficción”. Comienzas por el otro extremo y lo que tienes que decir te dicta la forma.

¿Produce muy continuamente? ¿Toma un descanso entre libro y libro?

Sí. No he escrito en un buen rato. Algunas veces hay lapsos muy largos. Siempre hay algo qué hacer, un artículo que tienes que escribir, quieras o no. Ahora estoy escribiendo cuentos. Es interesante, porque son muy cortos. Mi editor, Bob Gottlieb, me contó, al azar, que nadie le manda cuentos muy breves y que eso le parecía interesante. Pensé: “Dios mío, no he escrito un cuento muy breve en años”. Así que los estoy escribiendo de unas mil quinientas palabras, y es una buena disciplina. Lo estoy disfrutando. He escrito varios, y creo que voy a llamarlos London Sketches, porque todos tratan de Londres.

¿Entonces no son parábolas, o algo exótico?

No, para nada. Son totalmente realistas. Suelo pasear mucho por Londres. Y cualquier ciudad es un teatro, ¿no es así?

¿Tiene hábitos regulares de trabajo?

Eso no importa, sólo son hábitos. Cuando estaba criando a uno de mis hijos aprendí a escribir en momentos muy concentrados. Si tenía un fin de semana, o una semana, producía muchísimo. Ahora resulta que esos hábitos están arraigados. En realidad, lo haría mucho mejor si pudiera ir un poco más lentamente, pero es un hábito. He notado que la mayoría de las mujeres escriben así, mientras que Graham Greene, por lo que sé, escribe doscientas palabras perfectas ¡cada día! Eso me han dicho. Pienso que escribo mucho mejor si la cosa fluye. Comienzas algo y al principio es un tanto intermitente, torpe, pero luego llega un punto en que hay un clic y repentinamente te vuelves muy fluido. Es entonces cuando pienso que escribo bien. No escribo bien cuando estoy ahí sentada, sudando con cada frase.

¿Qué clase de lectora es usted? ¿Lee narrativa contemporánea?

Leo mucho. Soy muy rápida, gracias a Dios, porque nunca pude hacerlo de otro modo. A los escritores les envían un montón de libros las editoriales. Recibo ocho o nueve libros a la semana, lo que es una carga porque yo soy muy meticulosa. Suelo darme una idea de qué tan bueno es el libro en el primer o segundo capítulos. Y si me gusta, sigo leyendo. Es injusto, porque a veces puedo estar de mal humor, o demasiado absorta en mi propia obra. También hay escritores a los que admiro y siempre leo sus libros más recientes. Por supuesto hay muchas cosas que la gente me dice que debo leer, de modo que siempre estoy leyendo.

¿Puede contarnos sobre cómo fue el engaño de los Jane Somers al establishment cultural? Antes que nada, me parece un gesto increíblemente generoso poner un seudónimo a dos largas novelas para intentar demostrar de qué modo se trata a las novelistas jóvenes.

Para empezar, no iban a ser dos. Iba a ser sólo una. Lo que sucedió fue que escribí el primer libro y le dije al agente que quería venderla como una primera novela escrita por una periodista en Londres. Quería tener una identidad paralela a la mía, no diferente. Así que mi agente sabía, y la mandó. Mis dos editores ingleses la rechazaron. Vi los dictámenes, eran muy condescendientes. Sorprendentemente condescendientes. La tercera editorial, Michael Joseph (que editó mi primer libro), la dirigía una mujer muy inteligente llamada Phillipa Harrison, que le dijo a mi agente, “Me recuerda a la primera Doris Lessing”. Nos entró el pánico porque no queríamos que anduviera diciendo eso por ahí. Así que la invitamos a comer y le dije, “Soy yo, ¿podrás manejarlo? Al principio se molestó, pero luego lo disfrutó. Bob Gottlieb, que era entonces mi editor en Knopf en Estados Unidos, lo adivinó, y entonces ya eran tres personas. Luego el editor francés me llamó y me dijo, “acabo de comprar un libro de una escritora inglesa, y me pregunto si no le has estado ayudando un poco”. Así que le conté. De modo que, en total, cuatro o cinco personas lo sabían. Todos esperábamos que cuando saliera el libro, todos adivinarían. Bueno, pues antes de la publicación se le envió a todos los estudiosos de mi obra, y ninguno lo descubrió. Todos los escritores se sienten terriblemente enjaulados por estos expertos —los escritores se vuelven su propiedad. De modo que fue maravilloso. Fue lo mejor que pudo suceder. Cuatro editoriales en Europa lo compraron sin saber que era yo. Eso fue bueno. Luego salió el libro y tuvo las reseñas que tiene una primera novela, pequeñas reseñas, en general escritas por periodistas mujeres, que pensaban que yo compartía su oficio. Luego Jane Somers tuvo un montón de cartas de admiradores, en su mayoría fuera del círculo literario, de gente que atendía ancianos y se estaba volviendo loca. Y muchos trabajadores sociales, en acuerdo o en desacuerdo, pero diciendo que les gustaba que lo hubiera escrito. Así que pensé, bueno, voy a escribir otro. Para entonces me sentía fascinada con Jane Somers. Cuando escribes en primera persona, no puedes desviarte demasiado de lo que es apropiado para esa persona. Jane Somers es clase media. No asistió a la universidad. Comenzó a trabajar muy joven, siempre directo a la oficina. Su vida era la oficina. Tuvo un matrimonio que no era un matrimonio. No tenía hijos. No le gustaba viajar. Cuando salía de viaje con su marido, o por motivos de su oficina y su empresa, anhelaba regresar a casa. Su experiencia era lo más estrecha que pueda haber. Así que al escribir el libro tuve que eliminar todas las cosas que llegaban a mi pluma. ¡Fuera! ¡Fuera! Ella es una mujer común y corriente. Es muy definida en sus ideas de lo que está bien y lo que está mal.

Jane Somers está hecha de varias personas. Tengo una amiga que vive desesperada por lo que debe vestir. No le deseo a nadie las agonías que padece para lograr esa perfección. Otro modelo fue mi madre. Me imaginé cómo hubiera sido si fuera ahora una joven londinense. Una tercera persona es una persona que conocí y que solía decir: “Tuve una infancia totalmente feliz. Adoré a mis padres. Me encantaba mi hermano. Teníamos mucho dinero. Me encantaba ir a la escuela. Me casé joven, adoré a mi marido” —cosas así. Pero luego, su esposo murió repentinamente. Y de ser una encantadora niña-mujer, se convirtió en una persona. Así que usé todas estas cosas para formar un solo personaje. Es sorprendente lo que descubres sobre ti misma cuando escribes en la primera persona sobe alguien muy diferente a ti.

¿Su idea original con los libros de Jane Somers fue poner a prueba al establishment literario?

Sí. Llevo muchos años cerca de la maquinaria de las letras. Conozco lo bueno y lo malo de ella. No es a los editores que he tenido, sino a los reseñistas y los críticos a los que encuentro extraordinariamente predecibles. Yo sabía todo lo que iba a suceder con ese libro. Justo antes de destaparme me hicieron una entrevista en la televisión canadiense. Me preguntaron, “¿qué piensa usted que va a suceder?” y les respondí, “los críticos ingleses van a decir que el libro no sirve”. Y fue lo que sucedió. Aparecieron todas esas pequeñas reseñas amargas y desagradables. Mientras tanto al libro le fue muy bien en otros países.

En su prólogo a Shikasta escribió que la gente no sabe lo extraordinaria que es esta época en términos de poder disponer de todo tipo de libros. ¿Cree usted que en efecto vamos a abandonar la cultura del libro? ¿Qué precaria situación preveé?

Recuerdo que durante la Segunda Guerra Mundial había muy pocos libros, muy poco papel. Para mí entrar en una tienda o ver una lista y encontrar todo lo que quiero, o casi todo, es una especie de milagro. En tiempos difíciles, nadie sabe si vamos a tener ese lujo o no.

¿Siente algún tipo de responsabilidad en presentar estas profecías además de contar una buena historia?

Sé que hay personas que dicen cosas como “más bien la considero como una profeta”. Pero no hay nada de lo que haya dicho que no haya estado, por ejemplo, en el New Scientist durante los últimos veinte años. Nada ¿Así que por qué me llaman a mí profeta y no a ellos?

Porque usted escribe mejor.

Bueno, yo iba a decir que porque yo lo presento de una manera más interesante. Creo que algunas veces doy con una especie de longitud de onda —aunque sé que muchos escritores hacen lo mismo— en la que me anticipo a los acontecimientos. Pero no creo que sea tanto. Pienso que el trabajo de un escritor es provocar preguntas. Me gusta pensar que si alguien lee un libro mío, obtienen el equivalente literario de un regaderazo. Algo que los haga comenzar a pensar de un modo un poco diferente. Creo que para eso son los escritores. Este es nuestro papel. Pasamos todo nuestro tiempo pensando en cómo funcionan las cosas, por qué suceden las cosas, lo que significa que somos más sensibles.

También ha escrito usted no ficción

Sólo he escrito un libro, un libro breve, sobre la situación en Afganistán. Estuve allí y vi los campos de refugiados. El libro se llama The Wind Blows Away Our Words, que es una cita de uno de los combatientes que dijo: “Te gritamos pidiendo ayuda pero el viento se lleva nuestras palabras”.

¿Alguna vez le preocupó qué clase de autoridad podría tener en esa enorme historia, siendo una forastera que sólo estaba de paso?

¿A los periodistas les preocupa la autoridad con la que hablan, visitando países por tan poco tiempo? En cuanto a mí, más que la mayoría de los periodistas, iba muy instruida para el viaje, había estudiado este asunto durante varios años, conocido afganos y paquistaníes (como dejé claro en el libro) y había estado con gente que sabía farsi —beneficio que no comparte la mayoría de los periodistas.

Sus métodos de reportaje en ese libro han sido el blanco de algunos críticos estadounidenses que la acusan de que su viaje a Afganistán fue patrocinado por una organización pro-afgana. ¿Cómo responde a esto?

Esta es el estereotipo de la crítica de izquierda, de gente que no creo que espere que la tome en serio, pues en el libro dejé claro que el viaje no lo organizó una organización política. Fui por algo llamado Afghan Relief, ideado por unos amigos, entre ellos yo misma, que ayudó a muchas personas a visitar Pakistán, pero no con dinero. Yo pagué mis propios gastos, como las otras personas que viajaron conmigo. El asunto sobre Afghan Relief es que tenía lazos cercanos con los afganos, tanto los exiliados como los que combatían internamente, e incluía a afganos que vivían en Londres como consejeros. Afghan Relief hasta ahora no ha gastado un centavo en administración; todo el trabajo para reunir fondos, aquí y en Pakistán, se hizo voluntariamente.

Partiendo de la frase que usó para el libro de Jane Somers: “Si los jóvenes supieran / Si los viejos pudieran…”. ¿Hay cosas que hubiera hecho de otra manera, tiene algún consejo que dar?

No me gusta dar consejos. La cosa es que uno no piensa que va a envejecer. La gente no se da cuenta de lo rápido que va a envejecer. El tiempo pasa muy rápido.

ROBERT GOTTLIEB foi editor de Knopf, Simon & Schuster y The New Yorker.
Extraído de: The Paris Review, 1988.
Traducción: Delia Juárez G.

Melhorou a cobertura

O Pop pôs Carlos Eduardo Reche na Câmara de Vereadores de Goiânia e a sua cobertura melhorou consideravelmente.

Mantido

O jornalista Marcos Villas Boas continua na assessoria de imprensa do governador Marconi Perillo.

Um ponto para a Folha

A “Folha de S. Paulo”, na reportagem, “Paulo Renato submete artigo a banco”, publicada na quarta-feira, 10, mostra que não tem complacência editorial nem mesmo com seus colaboradores. O jornal expõe a relação, no mínimo estranha, entre o deputado tucano Paulo Renato e o presidente do Bradesco, Márcio Cypriano.

Abaixo, transcrevo a reportagem da “Folha”.

Paulo Renato submete artigo a banco

Deputado do PSDB pede opinião do presidente do Bradesco sobre texto com críticas ao Banco do Brasil
DA FOLHA DE S. PAULO

O deputado federal Paulo Renato (PSDB-SP) submeteu à apreciação da presidência do banco Bradesco um texto assinado por ele e enviado anteontem à Folha para publicação. No artigo, ainda inédito, o deputado critica a intenção do governo federal de passar o Besc (Banco do Estado de Santa Catarina) para o controle do Banco do Brasil.

O texto foi enviado ao jornal por e-mail. Por engano, o corpo da mensagem trouxe uma correspondência eletrônica anterior, na qual o parlamentar escrevera ao presidente do Bradesco, Márcio Cypriano: "Em anexo, vai o artigo revisto. Procurei colocá-lo dentro dos limites do espaço da Folha. Por favor, veja se está correto e se você concorda, ou tem alguma observação. Muito obrigado, Paulo Renato Souza".

Ouvido ontem pela Folha, o presidente do Bradesco, Márcio Cypriano, afirmou: "O deputado Paulo Renato me ligou perguntando se eu poderia ler um artigo que ele tinha escrito sobre bancos. O receio dele era de o artigo ter algum erro, já que tinha muitas questões e termos técnicos. Eu disse que podia ler e ele me mandou o artigo. Eu achei bom o artigo. Muito bem escrito, por sinal. Foi só isso".

Intitulado "Tentáculos da reestatização", o texto foi enviado dois dias após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter participado, em Florianópolis (SC), de um evento no qual dirigentes do BB se comprometeram a incorporar o Besc, federalizado na década de 90.

No texto, o ex-ministro da Educação (1995-2002) Paulo Renato reclama da ausência de um processo licitatório para definir os novos donos do Besc. Ele também critica supostas estratégias que estariam sendo empregadas pelo BB para expandir seus negócios no território nacional, o que seria, segundo ele, uma "nítida ofensa às regras concorrenciais".

O deputado Paulo Renato disse ontem à reportagem que não mantém nem manteve contratos com o grupo Bradesco por meio de sua empresa de consultoria, a Paulo Renato Souza Consultores. Afirmou que buscava apenas uma opinião técnica sobre o assunto.

"Eu tinha encontrado com o Márcio num almoço, comentei com ele que iria fazer esse artigo e pedi ajuda para ele para ver se não estava dizendo uma barbaridade sobre os temas que eu estava tratando. E ele se dispôs a me ajudar", disse.

Indagado sobre o verbo que utilizou, ao perguntar a Cypriano se ele "concordava" com o texto, o parlamentar afirmou: "Se concorda com os argumentos que eu coloquei no artigo".

O parlamentar disse ter feito o mesmo em relação a um artigo que produziu sobre a companhia siderúrgica Vale do Rio Doce: "Eu escrevi um artigo sobre a Vale do Rio Doce comparando com a Petrobras. Eu pedi os dados, obviamente, para o pessoal da Vale. Mandei o artigo [à Vale] para ver se eu tinha interpretado direito os dados que ele tinha mandado. A mesma coisa fiz agora", afirmou.

"Em economia, tem que se ter cuidado, pois os conceitos podem não estar precisos", disse ele, que foi professor titular de economia da Unicamp.

Repórter negro será colunista da Globo
DA FOLHA DE S. PAULO/UNIVERSO ONLINE

Heraldo Pereira é o novo comentarista político do "Jornal da Globo". Ele assumiu ontem a vaga deixada há quase um ano e meio por Franklin Martins, hoje ministro da Comunicação Social do governo Lula.

Primeiro jornalista negro a apresentar o "Jornal Nacional", ainda que apenas nas folgas de William Bonner e Fátima Bernardes, Pereira foi testado pela Globo nos últimos dois meses e meio. Repórter de política em Brasília, ele passou a fazer um trabalho misto, inserindo análises em suas apurações. Passou também a responder perguntas dos âncoras do "Jornal da Globo". A cúpula do jornalismo da Globo gostou do resultado e decidiu entronizá-lo no cargo de colunista. Pesou também na escolha o fato de o jornalista ter fontes de informação em todos os partidos.

O anúncio foi feito ontem à noite por Carlos Henrique Schröder, diretor da Central Globo de Jornalismo. Assim, Pereira é o primeiro comentarista político negro da Globo.

Pereira deixará agora de fazer reportagens, para se dedicar à coluna diária. Fará entradas ao vivo de estúdio e responderá a perguntas dos apresentadores. E continuará dando plantões no "Jornal Nacional".

O jornalista começou na Globo em 1980, pela afiliada de Ribeirão Preto (SP). Em 1988, foi trabalhar em Brasília, cobrindo a Constituinte. Teve uma passagem pelo SBT, de um ano, e voltou para a Globo em 1996.

Piada de salão

Morro de rir com o marketing da Alfaguara, que compara “As Benevolentes”, de Jonathan Littel, com “Guerra e Paz”, de Liev Tolstói. Pode se tratar de um grande livro, mas não tem a densidade literária do romance de Tolstói e mesmo de “Doutor Fausto”, de Thomas Mann.

Emir Sader x Veja

A “Veja” processou (por danos morais) o professor Emir Sader, que disse que uma resenha do livro “A Arte da Política: A História que Vivi”, de Fernando Henrique Cardoso, e perdeu em primeira instância.

“Se você quiser saber dos vínculos sorrateiros de Veja com o ex-presidente, que deram — na única resenha na imprensa — capa do seu livro, apresentado por um escriba de plantão (...)”, escreveu Emir Sader. O sociólogo disse que a resenha era “parcial” e “mentirosa”.

AP critica O Globo

Texto da Associated Press (AP): “O Globo, um dos maiores jornais do Brasil, deu credibilidade à lorota mais assustadora do ano. Citou uma autoridade estadual anônima de Santa Cruz dizendo que uma milícia anti-Morales, de 12 mil homens, estava escondida na floresta, esperando o momento certo. O repórter do jornal nunca viu a milícia e não apareceu nenhuma prova para confirmar a fofoca”.

RÚSSIA
Identificado assassino de Anna Politkovskaya

LETÍCIA NUNES, COM LARRIZA THURLER

Edição especial do jornal russo Novaya Gazeta marcou um ano da morte da repórter Anna Politkovskaya com a revelação de que já se conhece a identidade do homem que a assassinou. Ele ainda não foi encontrado e preso, e não se sabe quem foi o mandante do crime, mas a informação já é um avanço na investigação do caso, afirma o editor-chefe do jornal, Dmitry A. Muratov.

O assassinato de Anna Politkovskaya, apenas mais um em uma onda de crimes contra jornalistas na Rússia nos últimos anos, chocou o país e chamou a atenção internacional para um problema grave: a cultura da impunidade desde que o presidente Vladimir Putin subiu ao poder, há sete anos.

Anna, crítica ferrenha do governo e do presidente, foi executada a tiros em 7/10/06 no elevador do prédio onde morava, em Moscou. Para o Novaya Gazeta, sua morte se provou um desafio. Também crítico ao Kremlin, o jornal tem acompanhado de perto o trabalho dos investigadores federais e, em paralelo, conduz sua própria investigação. O objetivo da pauta, diz seu editor, não é mais informar o público sobre o andamento do caso, mas conseguir punir os culpados pelo bárbaro crime.

Artigos especiais

No fim da semana passada, editores e repórteres davam os toques finais para uma edição especial de aniversário da morte da jornalista. Nos dois principais artigos, uma entrevista com o promotor que coordena a investigação, Petros V. Garibyan, e um relato de abuso ocorrido em 2002 que, se não ficasse impune, poderia ter evitado a morte de Anna. Garibyan conta na entrevista que há 10 homens sob custódia e confirma que a identidade do assassino é conhecida.

Já no texto "Anna e o Palhaço", é descrito o sofrimento de Eduard Ponikarov, espancado em 2002 por diversos homens, entre eles o major Pavel A. Ryaguzov, da agência de inteligência FSB (ex-KGB). Segundo o jornal, Ryaguzov queria torturar Ponikarov para intimidá-lo e obrigá-lo a se tornar um informante da FSB, sob o codinome "Palhaço". Mas o homem sobreviveu à sessão de tortura e prestou queixa formal. Apesar de identificados, os agressores não foram punidos. O major Ryaguzov, posteriormente promovido a coronel, é um dos suspeitos detidos no caso de Anna Politkovskaya. Ele é acusado de informar os assassinos sobre o endereço da jornalista. Se ele tivesse sido preso em 2002 por abusar de Ponikarov, afirma o Novaya Gazeta, "talvez Anna Politkovskaya ainda estivesse viva".

Homenagens e protestos

No domingo, manifestantes e amigos de Anna compareceram a homenagens à jornalista e a uma passeata anti-Kremlin. "Ela foi morta porque era independente e corajosa", afirmou durante o evento Lyudmila M. Alekseyeva, que preside um grupo de defesa aos direitos humanos. "Ela lutou contra violações da lei, contra mentiras e violência". Muitas das pessoas que discursaram disseram temer que o governo atrapalhe uma investigação limpa sobre o assassinato.

Em agosto, o procurador-geral russo Yuri Chaika afirmou que o crime teria sido ordenado do exterior com o objetivo de desestabilizar a Rússia. O editor-chefe do Novaya Gazeta, Muratov, declarou na semana passada que não há evidências de envolvimento estrangeiro e que ele acredita que Anna teria sido morta porque investigava casos de corrupção na Rússia. "O poder criou um clima onde jornalistas são inimigos, a democracia não é regra e há uma nova elite para quem tudo é permitido". Informações de C.J. Chivers [The New York Times, 7/10/07].(Texto extraído do www.observatoriodaimprensa)

LEITURAS DA FOLHA
Entrevista de Hobsbawm, critérios de edição

ROMUALDO PESSOA CAMPOS FILHO

Veja como se faz uma edição de uma entrevista para que se possa direcionar a formação de opinião de acordo com a linha editorial de um jornal. Descobri a montagem capciosa estranhando alguns posicionamentos de Eric Hobsbawm. Quem ler Tempos Interessantes perceberá algumas diferenças fundamentais. E esse é um livro de memórias. Seria estranho que ele negasse o que estivesse ali.

Tive o trabalho de fazer a comparação entre as duas entrevistas publicadas no domingo (30/9) – a dada na Folha de S.Paulo e a que está na Folha Online. Se tanto um quanto o outro veículo pertence ao Grupo Folha, por que a diferença? A questão é: quem acessa a internet à procura de uma entrevista do Eric Hobsbawm na íntegra? Um é para um público seleto e limitado. E a linha editorial do jornal pode também ter diferença em relação ao conteúdo publicado na internet.

Confira. O que se lê nos jornais, nem sempre é o que se é ou o que foi dito.

***

Abaixo, trechos da entrevista de Eric Hobsbawm publicada na íntegra na Folha Online e da edição que apareceu na versão em papel. Nos detalhes em vermelho as partes que foram extraídas da edição publicada no jornal. Comentários meus nos trechos em recuo, entre colchetes. Vale perceber que o conteúdo retirado é aquele cujas idéias se chocam com a linha editorial do jornal, deixando visível uma manipulação com o intuito de conduzir a entrevista de forma evitar confronto entre as posições ideológicas do entrevistado e o que defende o jornal. O estranho não é a edição, às vezes ela torna-se necessária; mas, sim, o que se retirou da entrevista.

Ressalve-se, apesar da crítica, que é normal a edição de uma entrevista, devido ao espaço para publicação em papel ser reduzido. Portanto, não estou criticando a edição, mas estranhando que as partes extraídas se chocam com a linha editorial da Folha. Há, no mínimo, aspectos éticos nesse exemplo que devem ser questionados, já que se exige tanta ética por aí afora.

***

FOLHA (online) – O sr. diz que seu objetivo ao escrever Globalisation, Democracy and Terrorism era ajudar os jovens a enfrentar o século 21 com o pessimismo necessário. Por quê?

Hobsbawm – Não gostaria que isso fosse tomado como apenas a impressão de um velho homem. O fato é que as perspectivas simplesmente não são boas. Não me refiro apenas à política internacional, mas também aos assuntos relacionados ao ambiente. Hoje já não se pode dizer tão seguramente, como se podia ao longo dos séculos 19 e 20, que estamos num caminho de progresso e que as coisas só vão melhorar. Questões como crise de energia e falta de água são reais. Outro processo que não vai parar é o da globalização, e talvez o preparo que se exija dos jovens é para que saibam como vão lidar com essa aceleração dramática. Como o otimismo é uma característica tão natural na juventude, é preciso que reflitam sobre como direcioná-lo a alvos certos.

FOLHA (papel) – O sr. diz que o objetivo de seu novo livro foi ajudar os jovens a enfrentar o século 21 com o pessimismo necessário. Por quê?

Hobsbawm – O fato é que as perspectivas não são boas. Não me refiro apenas à política internacional, mas também aos assuntos relacionados ao ambiente. Hoje já não se pode dizer tão seguramente, como nos séculos 19 e 20, que estamos num caminho de progresso. Questões como crise de energia e falta de água são reais. Outro processo que não vai parar é o da globalização, e talvez o preparo que se exija dos jovens é para que saibam como lidar com essa aceleração dramática.

[Isso se confronta com o caos e o pandemônio como, principalmente o Brasil, é apresentado na mídia. Ele propõe, de fato, encarar os problemas com otimismo, e não com "o pessimismo necessário". Ao cortar essa parte foi apresentada uma visão oposta ao que o autor quis dizer.]

***

FOLHA (online) – O sr. disse que não é mais um comunista porque o comunismo já não está mais na agenda política do mundo. Mas que continuará se posicionando firmemente contra o que chama de `tentativa sistemática´ e internacional de transformá-lo numa `patologia´ ou num `pecado´. Por que acha que o anticomunismo esteja tomando formas tão agressivas?

Hobsbawm – Não é exatamente assim. Na verdade, o comunismo como movimento que conglomera muita gente já não existe. Em número de militantes, é hoje nulo. Não se trata mais de uma alternativa no Ocidente. Tampouco é considerado mais como inimigo para os EUA.

Durante a Guerra Fria, sim, era uma ameaça ideológica contra o governo norte-americano. Por isso houve não só satanização das idéias e propostas comunistas como uma perseguição real aos que o defendiam.

A partir de 1989, passou a ser diferente. Com relação à China, por exemplo. O que quer que esteja acontecendo de errado lá não tem nada que ver com o comunismo. Também não acho que os trabalhadores que assinaram manifestos pelo comunismo no passado pensem que acreditaram num Deus que falhou. Apenas quiseram fazer uma opção, que não deu certo. E depois vieram outras.

Hoje, achar que o comunismo é um mal concreto é algo que está limitado ao meio intelectual, aos que escrevem história ou artigos para jornais. Mais especificamente, a intelectuais de países em que o comunismo foi muito influente no debate político. Então chegou um momento em que essas pessoas quiseram reagir contra, como se estivessem pedindo desculpas pelo próprio passado, estabelecendo uma linha. Foi como se dissessem: ´Eu costumava acreditar, mas agora...´. Por exemplo, François Furet [historiador francês, autor de ´Pensando a Revolução Francesa´], quando o conheci, ele não era apenas um comunista, mas um enfático militante stalinista. E depois virou-se completamente.

Apenas nos ex-países comunistas do Leste Europeu o anticomunismo assumiu a forma de uma revolta real contra um determinado sistema. O anticomunismo de hoje é forte apenas no plano da discussão intelectual, geralmente em países que tiveram muitos militantes comunistas no passado. Fora desse círculo, já não se trata mais de um perigo real, não é sequer uma alternativa. Simplesmente deixou de ser um assunto importante.

FOLHA (papel) – O sr. disse que não é mais um comunista porque o comunismo já não está mais na agenda do mundo. Por que o anticomunismo está tomando formas tão agressivas?

Hobsbawm – O comunismo como movimento que conglomera muita gente já não existe. Não se trata mais de uma alternativa no Ocidente. A partir de 1989, passou a ser diferente. Com relação à China, por exemplo, o que quer que esteja acontecendo de errado lá não tem nada que ver com o comunismo. Também não acho que os trabalhadores que assinaram manifestos pelo comunismo no passado pensem que acreditaram num Deus que falhou. Apenas quiseram fazer uma opção, que não deu certo. Hoje, achar que o comunismo é um mal concreto é algo que está limitado ao meio intelectual. Mais especificamente, a intelectuais de países em que o comunismo foi muito influente no debate político. Então chegou um momento em que essas pessoas quiseram reagir contra, como se estivessem pedindo desculpas. Por exemplo, François Furet [historiador francês, autor de "Pensando a Revolução Francesa"], quando o conheci, ele não era apenas um comunista, mas um enfático militante stalinista. E depois virou-se completamente.

[As partes extraídas dessa resposta alteram substancialmente o sentido dela. Primeiro porque ele corrige a jornalista em sua versão original; segundo, porque não é feito referência à "demonização" aos comunistas, prática comum até os dias atuais; terceiro, porque extraiu maliciosamente a referência aos artigos publicados nos jornais (majoritariamente anticomunistas); por último, pelo fato de a revolta contra o comunismo ter como relevância nos países em que ocorreu uma experiência negativa, e não da idéia ou ideologia em si. Por isso ele diz: "Com relação à China, por exemplo. O que quer que esteja acontecendo de errado lá não tem nada a ver com o comunismo". Essa frase foi mantida, mas com um sentido dúbio.]

***

FOLHA (online) – No prefácio de Globalisation, Democracy and Terrorism, o sr. diz que suas convicções políticas são indestrutíveis.

Hobsbawm – Sim, minha convicção de ser de esquerda continua. Me posiciono fortemente contra o imperialismo. Contra as forças que acham que estão fazendo um bem para outros países ao invadi-los, e contra a tendência de pessoas que pelo fato de serem brancas acham que são superiores. Essas certezas eu não abandono. Mas algumas das minhas convicções mudaram. Não acredito mais que o comunismo como foi aplicado poderia ainda dar certo. E não sou mais um revolucionário. A revolução tampouco está hoje na agenda. Porém, não acho que tenha sido mau para mim e para minha geração termos sido revolucionários. Cresci na Alemanha de Hitler, sempre odiarei totalitarismos. A idade e a experiência me fizeram menos revolucionário. Mas não acho que foi ruim tê-lo sido. Ao contrário, foi essencial.

FOLHA (papel) – No prefácio de seu novo livro o sr. diz que suas convicções políticas são indestrutíveis.

Hobsbawm – Sim, minha convicção de ser de esquerda continua. Me posiciono fortemente contra o imperialismo e contra as forças que acham que fazem um bem a outros países ao invadi-los, e contra a tendência de pessoas que, por serem brancas, são superiores. Essas certezas eu não abandono. Mas algumas das minhas convicções mudaram. Não creio mais que o comunismo como foi aplicado poderia dar certo. E não sou mais revolucionário. Porém, não acho que tenha sido mau para mim e para minha geração termos sido revolucionários. Cresci na Alemanha de Hitler, sempre odiarei totalitarismos.

[A revolução não está na agenda. Não quer dizer que ela tenha sido eliminada definitivamente. E, o mais importante, a declaração sobre o fato de ele haver sido um revolucionário, colocado como algo de essencial em sua vida.]

***

FOLHA (online) – Mas o sr. acredita que a supremacia norte-americana esteja em vias de se dissolver?

Hobsbawm – A Guerra do Iraque está demonstrando que exercer influência no mundo todo não será possível. Ela está demonstrando que mesmo uma grande concentração de poder militar não pode controlar um Estado relativamente fraco sem certa aprovação ou consenso deste.

Há quem discuta a idéia de impérios informais, baseados nas corporações econômicas transnacionais. Mas esse é um tipo de poder frágil, fácil de explodir. O papel dos governos e Estados Nacionais diminuiu muito nos últimos 20, 30 anos. E o do capitalismo internacional aumentou. Mas não o suficiente para substituí-lo.

O mundo ainda se apóia muito numa simbiose entre Estados e infra-estruturas nacionais. Acredito que o que vai permanecer é um sistema internacional em que diferentes unidades vão operar juntas. A influência regional seguirá sendo possível e exercida por potências locais.

Quanto ao projeto norte-americano especificamente, defendo neste livro que está falindo. Isso que não significa que os EUA se tornarão um país mais fraco, ou que esteja em declínio ou colapso. Mesmo que perca todos os seus soldados, continuarão sendo uma nação populosa, importante econômica e politicamente.

FOLHA (papel) – Mas o sr. acredita que a supremacia norte-americana esteja em vias de se dissolver?

Hobsbawm – A Guerra do Iraque está demonstrando que exercer influência no mundo todo não será possível. Ela está demonstrando que mesmo uma grande concentração de poder militar não pode controlar um Estado relativamente fraco sem certa aprovação ou consenso deste. Defendo no livro que o projeto norte-americano está falindo. O que não significa que os EUA se tornarão um país mais fraco, ou que estejam em declínio ou colapso. Mesmo que percam os seus soldados, continuarão sendo uma nação importante, econômica e politicamente.

[Aqui há uma crítica importante ao papel das grandes corporações, extremamente relevante pelo poder que elas exercem hoje, inclusive na mídia. Na verdade, a parte excluída pressupõe uma crítica ao neoliberalismo e expõe, segundo ele, a importância do Estado, o que se confronta claramente com a linha editorial da Folha, claramente privatista e neoliberal.]

***

FOLHA (online) – Mas onde estão os indícios dessa falência, além do fracasso da intervenção militar no Iraque?

Hobsbawm – O império norte-americano não permanecerá, entre outras razões, por questões internas. A maior parte dos norte-americanos não quer saber de imperialismo e sim de sua economia interna, que tem demonstrado fragilidades. O capitalismo tem passado por uma crise desde o final dos anos 90. O governo norte-americano não tem lidado bem com isso. Logo os projetos de dominação mundial terão de dar lugar a preocupações econômicas. E os outros países, se não podem conter os EUA, têm de acreditar que é possível tentar reeducá-los.

FOLHA (papel) – Mas onde estão os indícios dessa falência, além do fracasso da intervenção militar no Iraque?

Hobsbawm – O império norte-americano não permanecerá, entre outras razões, por questões internas. A maior parte dos norte-americanos não quer saber de imperialismo e sim de sua economia interna, que tem mostrado fragilidades. Logo os projetos de dominação mundial terão de dar lugar a preocupações econômicas. E os outros países, se não podem conter os EUA, têm de acreditar que é possível tentar reeducá-los.

[A omissão sobre a crise do capitalismo. Percebam o período citado por Hobsbawm como sendo dessa crise: "desde o final dos anos 90". Conseqüência do fracasso mundial das políticas neoliberais.]

(Texto extraído do site www.observatoriodaimprensa.com.br. Romualdo Pessoa é professor da Universidade Federal de Goiás)



© Copyright Jornal Opção. Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal Opção.