Intolerância ideológica e o mundo como ele é

Administrativas · Ciências · Esportes · História · Mundo · 9/01/2008 - 12h20 - 289 Comentários

A blogosfera brasileira é um poço de intolerância ideológica. Imagino que seja muito divertido estar à direita chamando a esquerda de ‘petralha’ ou estar à esquerda acusando a existência de uma ‘mídia golpista’. Pois bem, de minha parte não sento na torcida do Vasco de jeito nenhum. Mas futebol serve mesmo à irracionalidade.

O mundo é um pouco mais complexo. Há espaço de sobra para as torcidas organizadas na web tupinambá. Aqui, não.

Promover a intolerância é fácil, basta ter a capacidade de criar refrões. Não é preciso raciocinar. Decora-se uma fórmula para olhar o mundo que de presto heróis e vilões são estabelecidos, nítidos que só. Daí: ‘eis aqui este sambinha, feito de uma nota só.’

Este Weblog não serve para quem quer ver os EUA como o maior vilão em existência. Também não serve para quem acha que Israel é só vítima no trato com palestinos. Se alguém acha que Lula é a melhor coisa que já aconteceu na história deste país, este não é o espaço mais adequado para compartilhar sua admiração. Mas quem acredita que Lula é a pior coisa, não sabe ler números. Neste Weblog, chefes de Estado não se dividem entre heróis e vilões. Dividem-se, isto sim, entre competentes ou não, totalitários ou não, corruptos ou não, inteligentes ou não, e nenhum adjetivo positivo necessariamente exclui um negativo. Assim, Vladimir Putin, da Rússia, pode ser um político hábil no trato popular e corrupto, ter tendências autoritárias enquanto é competente na lida com política externa. E nenhuma qualidade é absoluta. Quem acerta quase sempre, pode – e erra – vez por outra.

O mundo é assim e está ficando mais, não menos complexo. Se não fosse, um espaço para tentar compreendê-lo seria desnecessário. Esquerda e direita continuam existindo. E este é o problema de quem fala em ‘petralha’ e de quem fala em ‘mídia golpista’. Antes, quase toda geopolítica se resumia à corrida armamentista entre União Soviética e EUA. Não houve guerra, golpe de Estado ou crise internacional, nas últimas décadas, que não estivessem diretamente ligadas a este único conflito. Não mais.

Hoje, temos de lidar com a grande crise entre um mundo religioso e o secular. A discussão se dá no Oriente e no Ocidente de múltiplas formas, envolve em níveis distintos aborto, casamento homossexual, uso de células tronco para pesquisas, o direito de aparar a barba, de escolher com quem casar, às vezes até, para mulheres, o direito de mostrar o rosto. Temos de lidar com as transformações climáticas, questão que envolve a energia que movimenta o planeta e, daí, fortunas, interesses nacionais, reações nacionalistas, promoção de ditaduras, guerras para derrubar ditaduras, discussões científicas, campanhas de marketing para questionar discussões científicas, morte. Este é, de um ano para cá, um mundo mais urbano do que rural, e o mundo urbano é dois terços favela. O planeta não é particularmente mais violento, mas também não é menos e rigorosamente tudo está interligado. Armamento nuclear não se divide mais nos padrões da Guerra Fria – se espalha. Então, seja pelo clima, seja pela intolerância religiosa, seja por uma única bomba nuclear, o mundo é mais perigoso e as causas e conseqüências são tão embaralhadas que é difícil, dada uma situação, compreender dela todo o contexto.

Não bastasse, tecnologia de informação nos deixou a todos mais próximos. A proximidade causa fascínio mas também choque e rejeição. Migração, terrorismo, intolerância ao diferente, comércio internacional, o sistema financeiro intenso que cruza fronteiras de um segundo para o outro. O mundo jamais produziu tanta riqueza e sua instabilidade jamais foi tão perceptível.

Francamente, viver no mundo da blogosfera lá fora, aquele que acredita em ‘petralhas’ e em ‘mídia golpista’, é tão redutor, tão pobre, que me surpreende que o maniqueísmo construa blogs tão populares. Mas, vá, é mais confortável reduzir à fórmula polarizante do que se assoberbar com o peso da existência como ela é.

Então este é um convite: quem quiser manter a toada reducionista encontra na blogosfera lá fora um público ávido. Ao menos aqui, o objetivo é outro. Aqui exercemos o fascínio com a complexidade, o prazer de mudar de opinião, e a surpresa com as mudanças.

Vivemos numa democracia. Numa democracia, as pessoas mais interessantes são aquelas com quem discordamos.

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